sexta-feira, 2 de maio de 2008

Buda e o Molusco

Sidarta Gautama era um príncipe, que cresceu protegido do mundo por ordem de seu pai. Um dia fugiu, e conheceu três coisas que o abalaram profundamente: a velhice, a doença e a morte. E uma quarta, que foi o esplendor de um monge, o que o levou a procurar uma nova vida, e que o tornou o Buda.

Na velhice, um senhor encurvado que mal conseguia andar. Na doença, um homem excruciado por dores. E a morte, um cadáver envolto em uma mortalha de linho. Protegido dessas iniqüidades, Sidarta as desconhecia completamente. E, por conhecê-las, transformou-se, dedicando sua nova vida, abdicada de riquezas e posições.

Na sua luta pela presidência, o Molusco Lá já conhecia os flagelos da vida. Pobreza, doenças, morte, tudo era muito, muito conhecido pelo metalúrgico. Que disse a nós que lutaria contra essas pragas se tivesse poder.

Votamos nele (sim, votei algumas vezes) só para descobrir que é o Buda ao contrário. Que, se tocado antes pelas pragas da vida, hoje em dia está protegido delas. Não precisa mais enfrentar filas do SUS, pois suas doenças são tratadas em hospitais de primeira linha, sem filas. Doenças, não há mais. Velhice, ora, a velhice não é senão um estado de espírito. Como se pode ser velho com um belo salário, amigos dispostos a favores perenes, viagens, holofotes?

No maior estelionato eleitoral que já vi, nosso Adub, que dizer, nosso Molusco, esqueceu-se de suas origens. Em vez de se escandalizar, desescandalizou. Deixou de ser aquele que nos redimiria, deixou de se importar.

Encantou-se com o brilho. Não dos monges, mas o próprio. E, nesse brilho, acha que falar resolve. E que falar muito, resolve mais.

Continuamos como estávamos. Há nossos doentes, nossos idosos, e nossos mortos. E há nós, que se não estamos lá ainda, estaremos: idosos, doentes, ou mortos. A diferença é o que o Molusco Lá, adorado por nós, elevado por nós, continuará seu discurso, o de que nunca antes neste país tivemos alguém lá por nós.

Como se fizesse diferença.

A metamorfose do poder agiu novamente. Elegemos um de nós, e logo ele se transformou num deles. Pior: no seu líder.

Pior que nossa condição de idosos desamparados, doentes sem socorro e mortos sem dignidade, só mesmo a do Molusco, que a história há de mostrar: o traidor da história própria.

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