terça-feira, 20 de maio de 2008

Calos de relacionamento

Certa vez, ao chegar ao trabalho ( ainda era funcionário de estatal), encontrei o maior rebuliço, com fofocas cruzando o ar como mísseis. A causa: uma auditoria teria demitido um gerente de uma unidade próxima. Informações desencontradas, cada um dizia uma coisa e uma causa diferente. Peguei o telefone, liguei para a pessoa, e fui franco e direto:

- Aqui está correndo um boato de que você foi demitido pela auditoria. É verdade?

Espantadíssimo com minha abordagem direta, ele me contou o que acontecera, e o envolvido nem ele era. De posse da informação, reuni quem eu pude e tratei de "espalhar" a verdade. Os boatos morrera, a paz voltou.

Esse flash back de minha falta de cerimônia foi devido a uma triste constatação: há cerimônia demais nos relacionamentos, qualquer relacionamento. E há julgamento demais, para informação de menos.

Presencio isto diariamente: uma pessoa que passa sem se deter, que mal cumprimenta as demais, logo é rotulada. Negativamente, claro. A ninguém interessa se ela está com problemas, se algo mais grave a está preocupando, ou se o problema é conosco.

Esses julgamentos, baseados numa verdade percebida (que não necessariamente é uma verdade) são a coisa mais prejudicial no relacionamento. Quando rotulamos uma vez, o rótulo fica. E sempre emerge, transformando-se em "verdade", pois sempre alguém a ratificará, mesmo que para isto tenha de prejulgar novamente.

Um exemplo desse tipo de comportamento é este texto de Stephen Covey, reproduzido por mim. E as "verdades" que decorrem de nossos julgamentos acabam se impondo perante as pessoas, transformando-se, muitas vezes, em obstáculos intransponíveis. Desnecessários, mas instransponíveis.

As relações exigem aquela abordagem direta. Exigem assertividade, exigem maturidade. A conversa precisa existir, e as respostas precisam ter sua chance. Não se sustenta um relacionamento - amoroso, de amizade, profissional -- com base em meias-verdades ou amarguras embaixo do tapete.

E as conversas, quando não entabuladas, impedem mesmo as outras: a contaminação da falta de comunicação. Pessoas não têm coragem de perguntar, podem não ter coragem de responder. A troca de informações não acontece, forma-se uma crosta de mal-entendidos que vai se avolumando. Até chegar a um ponto em que sufoca o sentimento original do relacionamento.

É difícil ver pessoas se destruindo, e aos seus relacionamentos, em decorrência de um processo tão deletério. Seria muito, muito fácil resolver esse tipo de problema. Se o mundo fosse ideal, mas não é.

Essa conversa exige igual maturidade das partes. E igual dedicação, preocupação, resolução de resolver os problemas existentes e evitar outros. E essa maturidade não é tão comum como poderia ser, infelizmente.

Um dia destes, presenteei duas pessoas com caixas de chocolates . Uma delas ficou felicíssima, agradeceu, e perguntou o motivo. Disse que não tinha motivo, apenas quis fazer aquilo. Ela abriu um belíssimo sorriso, e foi-se embora feliz. A outra pessoa, desconfiadíssima, perguntou também o motivo. Dei a mesma resposta que dera à outra. E ainda assim ela ficou matutando: "o que você quer", "o que você fez de errado", "o que você vai pedir"...

Perdeu uma chance de estar feliz.

Assisto cenas de pessoas que se afastam por causa dessa falta de comunicação. E, ressentidas com o afastamento, amargam na tristeza, causada por elas mesmas, ou ao menos por ela não enfrentada. Tenho uma enorme vontade de dizer: - vocês não estão vendo como tudo isto é um mal entendido: Vocês não vêem como o problema não existe?

Não, não faço isto. Talvez pelo princípio da percepção dor-prazer (temos a tendência de repetir o que causa prazer e evitar o que causa dor). Seria intromissão, seria uma invasão. E eu nem fui chamado... seria um outro rótulo.

Essas coisas têm de amadurecer no pé. Mesmo que doa, mesmo que cause sofrimento, é o tipo de coisa que só se cura com maturidade e serenidade. Infelizmente.

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