quarta-feira, 30 de abril de 2008

Moinhos de vento

Já que estamos tão, digamos, literários, outro momento dos mais mágicos. Quando Dom Quixote ergue sua lança e avança contra moinhos de vento, lutando contra monstros imaginários, e em função da formosa Dulcinéia, que nem fazia idéia que ele existia...

Algumas de nossas maiores batalhas são exatamente assim, sem motivo e sem platéia. E sem credibilidade. Trata-se somente de defender o que acreditamos, trata-se de justificar nossa existência. As dulcinéias são todas aquelas coisas que desejamos, nossos sonhos, pelos quais passamos as maiores dificuldades e quem sequer conhecem nossa existência.

E os sanchos são aquelas pessoas que sempre estão lá por nós, como nossos próprios quixotes, talvez enxergando em nós os seus próprios moinhos de vento.

E, assim, de forma circular nesta vida, somos, ao mesmo tempo, dulcinéia e moinho, e, na maioria da vezes, sanchos, abnegados, muitas vezes resignados, apoiando nossos quixotes. Quando não somos o próprio.

Miguel de Cervantes relatou nossa vida. Nossas lutas, nossa visão particular, nossos amigos e nossa família, todos, resignados, nos assistindo e nos apoiando nesta nossa vida contra os moinhos que criamos.

No final das contas, guardadas as proporções, todos estamos dispostos a ser o moinho, que assombra alguma coisa ou alguém, ou a Dulcinéia, que flana, numa sonora alienação com a vida (ao menos a nossa), ou o Sancho Pança, amigo fiel, que parece uma mãe, que coloca o filho acima de tudo, de todos, e da razão. Ou do próprio Quixote, que, inserido num mundo real e perverso, se faz herói no seu mundo, em que, na irrealidade, constrói suas alegrias e paixões.

No final das contas, este mundo é reducionista. Escolhamos um papel, ou vários, e sejamos felizes.

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