terça-feira, 29 de abril de 2008

A lei da selva

Quando se diz algo sobre a lei da selva, entende-se que seja a lei do mais forte. E é. Mas não é como se pinta por aí. Ao menos, quando se lê The Jungle Book, de Rudyard Kipling, que é de meus livros de cabeceira.

É a história de Mowgli, tão maltratada por Disney na adaptação para o cinema. É uma obra que fala, sim, da lei do mais forte, mas entremeado de mensagens de justiça e honra, que se transformaram em nada no filme/desenho.

Começa com a adoção de Mowgli pela alcatéia de Seoni, mas aqueles que conhecem a história por Disney não conhecem o lobinho Gris, ou a verdadeira honra de Won-Tola (o Lobo Arredio) e de Akelá (O Lobo Solitário, o líder da alcatéia), ou da força (moral) de Raksha, a loba que acolheu Mowgli, e de toda a teia que se forma em nome dos valores, e que obriga a todos os habitantes da selva.

Na história, Mowgli cresce entre lições, sempre dirigidas à moral e à honra. O saber-se mais forte não implica em dominar ou preponderar, embora ele o faça, por um fato que não se pode ignorar: ele é um ser humano, já prepondera e já domina por sua natureza.

Na lei da selva, nesta de Kipling, os animais só se valem da força para os chamados da natureza (alimentar-se e defender-se), e somente para isto (exceção a Shere Khan, devidamente apresentada e condenada). Se há inveja, intriga e fofoca, são vinculadas aos "maus" da história (a hiena, o tigre). Os demais se deixam e se exigem reger por um código de honra complexo e completo, e é de responsabilidade de Balloo ensinar a Mowgli esse conjunto de valores.

Mas o ser humano, cujos valores mudam de acordo com o indivíduo, a raça, a religião etc., ao longo do tempo, vem perdendo essa noção de igualdade. A lei da selva está mais para lei da selva de pedra, pois o homem é o único que mata sem ser para comer. E mata também figurativamente, como se não bastasse o assassinato como elemento de uma espécie. No homicídio figurado, os elementos são a honra, a vontade, o entusiasmo, a auto-estima, qualquer elemento psico-emocional que o faça sobrepujar outro ser.

Não que seja uma regra generalizada, mas é, no mínimo, generalizante. Cada vez mais o ser humano tem comportamentos que desagregam, e uns poucos somente procurar agregar.

Quando vejo nas escolas a prática do bullying (que é a perpetração de atos ofensivos, sejam eles físicos ou psicológicos a outros, normalmente mais fracos) e todos consideram como normal da idade, penso que falta algo em nossa educação. Aceitamos, ao longo de nossa vida, em nossa educação e na educação que oferecemos, esse comportamento que precisamos extirpar. A falta de empenho, e, pior, de preocupação com o assunto, deveria nos escandalizar, nos mobilizar, nos fazer procurar saídas para essa enorme demonstração de intolerância. Ou de falta de educação.

Seria muito melhor se, entre nós, se fizesse valer a lei da selva (a de Kipling), e se achássemos em nossos pais, tutores, parentes, referências, um Baloo, ensinando-nos a ser aquele bicho da alcatéia em que transformou Mowgli. Muito mais civilizado que muita gente de terno e gravata...

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