quinta-feira, 17 de abril de 2008

Colhendo o que plantamos

Numa manhã chuvosa em São Paulo, depois de uma noite bem molhada em todo o estado, chamou-me a atenção a quantidade de garrafas tipo pet boiando no Rio Tietê. Como se fosse uma decoração (e, de fato, mais à frente havia gigantescas garrafas pet decorando as margens do rio), vinham atropeladas pela correnteza, agrupadas como se fossem um bando.

Lembrei-me de dois episódios. Num deles, após uma enchente daquelas que denuncia a rivalidade entre São Paulo (a cidade) e São Pedro (o dono da torneira), um secretário municipal paulistano disse que, se as pessoas não jogassem tanto lixo nas ruas, os bueiros não entupiriam tanto e as enchentes seriam menos freqüentes. Noutro episódio, o secretário de justiça do Rio de Janeiro colocou parte da culpa pela criminalidade do estado nos usuários de drogas, já que eles alimentavam toda a rede marginal à lei.

Num e noutro casos os declarantes foram impiedosamente apedrejados pela imprensa (principalmente). Por vários dias se justificaram, até findarem com o famoso "não foi bem isto o que eu quis dizer".

Pois bem, eu que não sou secretário, e a quem a imprensa não apedrejará, digo: se o cidadão o fosse no dever como é para exigir seu direito, o Brasil seria muito, muito melhor. Pergunto: estão errados os senhores que disseram aquilo?

Fábio Seixas (repórter da Folha de São Paulo) no seu blog denunciou (marca, cor e placa do carro), dia destes, um cidadão (?!?!) que atirou lixo pela janela do veículo e houve quem o criticasse por isto. A grande maioria aprovou, é verdade, mas existiu, sim, quem o criticasse pela denúncia.

A quantidade de garrafas boiando no rio me fez concluir que o secretário tem razão. E que as mesmas pessoas que ficam horas trancadas no trânsito das enchentes tem parcela de responsabilidade nisto, por ação direta ou omissão cômoda.

Quanto às drogas, o secretário (hoje ex) também tem razão. O consumidor tem culpa, e não é pequena. Alimenta uma rede que só tende a crescer, e as vítimas, quando não são os próprios consumidores, são pessoas muito próximas a eles.

A noção de cidadania (esta bela palavra, famosa depois da constituição cidadã de 1988) precisa ser estendida e entendida. Não somos cidadãos somente por exigir nossos direitos. também precisamos cumprir com os deveres. Esta última parte está meio esquecida, e alguns de nossos problemas decorrem disto.

E, para não dizer que não falei do molusco, nosso presidente, quando não chama à razão seus aloprados e outros descerebrados, somente reforça esse comportamento entre seus acólitos. Que acham que ser é tudo, e fazer é somente uma possibilidade. Mas que no caso deles ambas as ações são (ou deveriam ser) simultâneas.

Como a garrafa pet respingou no presidente? Simples. Se a lei diz uma coisa, precisamos obedecê-la. No mínimo por medo da punição, melhor se por respeito à regra. Mas se fazemos a coisa certa, independente de lei (daquela escrita bem longo, no deserto de Goiás), mas de acordo com nossos valores, estamos obedecendo à moral. Nossa moral, pode ser, mas respeitamos um valor em que acreditamos, em que escolhemos acreditar. O respingo aí está: não esqueçam o que escrevi, ou o que falei. Nossos valores são indeléveis (e indeletáveis...)

Nenhum comentário:

Postar um comentário