quarta-feira, 30 de abril de 2008

Moinhos de vento

Já que estamos tão, digamos, literários, outro momento dos mais mágicos. Quando Dom Quixote ergue sua lança e avança contra moinhos de vento, lutando contra monstros imaginários, e em função da formosa Dulcinéia, que nem fazia idéia que ele existia...

Algumas de nossas maiores batalhas são exatamente assim, sem motivo e sem platéia. E sem credibilidade. Trata-se somente de defender o que acreditamos, trata-se de justificar nossa existência. As dulcinéias são todas aquelas coisas que desejamos, nossos sonhos, pelos quais passamos as maiores dificuldades e quem sequer conhecem nossa existência.

E os sanchos são aquelas pessoas que sempre estão lá por nós, como nossos próprios quixotes, talvez enxergando em nós os seus próprios moinhos de vento.

E, assim, de forma circular nesta vida, somos, ao mesmo tempo, dulcinéia e moinho, e, na maioria da vezes, sanchos, abnegados, muitas vezes resignados, apoiando nossos quixotes. Quando não somos o próprio.

Miguel de Cervantes relatou nossa vida. Nossas lutas, nossa visão particular, nossos amigos e nossa família, todos, resignados, nos assistindo e nos apoiando nesta nossa vida contra os moinhos que criamos.

No final das contas, guardadas as proporções, todos estamos dispostos a ser o moinho, que assombra alguma coisa ou alguém, ou a Dulcinéia, que flana, numa sonora alienação com a vida (ao menos a nossa), ou o Sancho Pança, amigo fiel, que parece uma mãe, que coloca o filho acima de tudo, de todos, e da razão. Ou do próprio Quixote, que, inserido num mundo real e perverso, se faz herói no seu mundo, em que, na irrealidade, constrói suas alegrias e paixões.

No final das contas, este mundo é reducionista. Escolhamos um papel, ou vários, e sejamos felizes.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A lei da selva

Quando se diz algo sobre a lei da selva, entende-se que seja a lei do mais forte. E é. Mas não é como se pinta por aí. Ao menos, quando se lê The Jungle Book, de Rudyard Kipling, que é de meus livros de cabeceira.

É a história de Mowgli, tão maltratada por Disney na adaptação para o cinema. É uma obra que fala, sim, da lei do mais forte, mas entremeado de mensagens de justiça e honra, que se transformaram em nada no filme/desenho.

Começa com a adoção de Mowgli pela alcatéia de Seoni, mas aqueles que conhecem a história por Disney não conhecem o lobinho Gris, ou a verdadeira honra de Won-Tola (o Lobo Arredio) e de Akelá (O Lobo Solitário, o líder da alcatéia), ou da força (moral) de Raksha, a loba que acolheu Mowgli, e de toda a teia que se forma em nome dos valores, e que obriga a todos os habitantes da selva.

Na história, Mowgli cresce entre lições, sempre dirigidas à moral e à honra. O saber-se mais forte não implica em dominar ou preponderar, embora ele o faça, por um fato que não se pode ignorar: ele é um ser humano, já prepondera e já domina por sua natureza.

Na lei da selva, nesta de Kipling, os animais só se valem da força para os chamados da natureza (alimentar-se e defender-se), e somente para isto (exceção a Shere Khan, devidamente apresentada e condenada). Se há inveja, intriga e fofoca, são vinculadas aos "maus" da história (a hiena, o tigre). Os demais se deixam e se exigem reger por um código de honra complexo e completo, e é de responsabilidade de Balloo ensinar a Mowgli esse conjunto de valores.

Mas o ser humano, cujos valores mudam de acordo com o indivíduo, a raça, a religião etc., ao longo do tempo, vem perdendo essa noção de igualdade. A lei da selva está mais para lei da selva de pedra, pois o homem é o único que mata sem ser para comer. E mata também figurativamente, como se não bastasse o assassinato como elemento de uma espécie. No homicídio figurado, os elementos são a honra, a vontade, o entusiasmo, a auto-estima, qualquer elemento psico-emocional que o faça sobrepujar outro ser.

Não que seja uma regra generalizada, mas é, no mínimo, generalizante. Cada vez mais o ser humano tem comportamentos que desagregam, e uns poucos somente procurar agregar.

Quando vejo nas escolas a prática do bullying (que é a perpetração de atos ofensivos, sejam eles físicos ou psicológicos a outros, normalmente mais fracos) e todos consideram como normal da idade, penso que falta algo em nossa educação. Aceitamos, ao longo de nossa vida, em nossa educação e na educação que oferecemos, esse comportamento que precisamos extirpar. A falta de empenho, e, pior, de preocupação com o assunto, deveria nos escandalizar, nos mobilizar, nos fazer procurar saídas para essa enorme demonstração de intolerância. Ou de falta de educação.

Seria muito melhor se, entre nós, se fizesse valer a lei da selva (a de Kipling), e se achássemos em nossos pais, tutores, parentes, referências, um Baloo, ensinando-nos a ser aquele bicho da alcatéia em que transformou Mowgli. Muito mais civilizado que muita gente de terno e gravata...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Do meu jeito

Uma característica minha, que muitos consideram um defeito, é que eu faço as coisas de meu jeito. E, deste meu jeito, rotulado de sistemático, teimoso, abnegado, rebelde, estúpido, vou construindo minha vida.

Talvez outros caminhos pudessem ter sido mais fáceis. Ou mais curtos. Ou mais prazerosos. Ou, também, mais tristes, mais demorados, mais difíceis.

O caso é que eu acredito nesses caminhos que escolhi. Sem arrependimentos, que são somente um peso para a vida. Mas, sempre, de acordo com o que acredito, o que acho válido.

O que é um homem, o que ele tem? Ele é o ser único, indivíduo sui generis entre muitos iguais, na diferença da compreensão do mundo e do preço a pagar pelos caminhos.

Meus caminhos são a minha escolha, resultado de meus credos, medos, visões de vida. Arrepender-me? Perda de tempo. Levantar, escolher o objetivo, eis o aprendizado.

E, se meu caminho estiver errado, que me seja permitido retrilhá-lo (com perdão pelo neologismo).

Aqui, de novo, Frank Sinatra, falando por mim, depois de uma dessas oportunidades.

domingo, 27 de abril de 2008

Fim de festa, the dream is over...

Sempre associo as frases de Luther King e John Lennon. Numa associação indesejada, mas inevitável.

I have a dream.
Martin Luther King.

The dream is over.
John Lennon

As coisas com as quais sonhamos nem sempre são concretizáveis. Nem sempre viram verdade. Quando nos perdemos naquelas ações que dependem de outras pessoas, não temos como negar a incurável verdade. Quando dependemos de nós, só nos resta começar de novo. E de novo, e de novo, e de novo... até quanto baste à nossa persistência.

Não dou murros em ponta de faca. A não ser que ache que o ideal valha a pena. Algumas vezes, por quimeras, desperdiço muitos socos. Mas continuo, porque o sonho nos define, e nos dá razões para viver. Se o impossível nos assustasse, talvez não fosse possível ir à lua.

Acredito na razão, mas acredito ainda mais na possibilidade do ser. Que não é pau, que nasce torto...

Simone...

9 semanas

Mais uma...

Estou tirando as teias de aranha do guarda-roupa...

Paixão

É do Kleiton e Kledir, uma dupla gaúcha sensacional. Na minha opinião, é uma das músicas mais bonitas da MPB. Como estou numa fase musical, ela não poderia faltar aqui.

Cheia se significados...

Paraíso na Terra

Como se sabe, as religiões são um bálsamo para os desejos frustrados de seus seguidores. É muito fácil aliciar pessoas prometendo a elas o que elas querem. Há uma religião que promete um paraíso onde verte lei e mel. Outra, uma paisagem verde. Outra, justiça e igualdade. E por aí vai.

Há outras que prometem o paraíso ainda em terra. Basta rezar e pagar sua contribuição. Sessões de reza/descarrego se realizam com objetivos específicos: arrumar as finanças, regularizar a vida amorosa...

Vou propor a criação de outra religião. Acho que até já existe, mas precisamos oficializá-la.

O nome? Vou chamá-la de PTestemunhas do Molusco Lá. Sem motivo algum.

Todos podem aderir a ela. É preciso contribuir, claro, pois seus altos mandatários precisam viver (e bem, pois o Romanée-Conti é caro). Mas a contribuição não precisa sair do seu bolso. Você pode induzir outras pessoas a contribuir, mesmo sem que saibam. Ou pode se socorrer naquele dinheiro público, já que o assunto é de interesse geral.

O paraíso é na terra. E tem muitas e muitas vantagens. Tais como:
  • Cartão de crédito sem limites e sem perguntas; e você ainda pode sacar sua parte em dinheiro (pode até ser mais que aquele com que você contribuiu);
  • Amigos no poder. Sem ser Pasárgada, onde tem que ser amigo do rei, aqui você pode ser amigo de vários, para se motivar. Seus amigos, em postos estratégicos, o protegerão da lei, que é feita somente para os não seguidores. E também daqueles que, invejosos, ficam à procura de motivos para denegrir sua imagem;
  • Várias fontes de renda. Pode ser uma comissão por um negócio, pode ser uma mesada por causa de uma determinada opinião sua;
  • Viagens. Muitas viagens. Já que ninguém é de ferro, é preciso espairecer. Pode ser na aviação normal, essa em que qualquer um entra, ou pode ser no AeroMolusco;
  • Mimos. Algumas pessoas, sem motivo aparente, poderão oferecer-lhe presentes, somente por gentileza. Você nem sabe o que fez para ser tão querido, mas seu benfeitor saberá; e pode ser até uma Land Rover;
  • Direito de aloprar-se. Se você cometer um erro, por mais grave que seja, será perdoado pelos papas da religião, e até mesmo pelo Molusco. E esse perdão tem o condão de afastar qualquer punição pretendida pelos homens (dos não-moluscáveis, claro);
  • Igualdade. Se todo mundo faz, você também poderá fazê-lo;
  • Prosperidade. Seus bens crescerão de forma mágica, quase que milagrosamente. Pode ser a reunião de vários dos benefícios anteriores, mas o fato é que você ficará rico.
Mas como tudo tem um outro lado, é preciso tomar cuidado com algumas coisas:
  • Você terá uma tendência a falar. Muito. E nem tudo terá sentido. Aliás, quase nada. A diarréia verbal é um sintoma (principalmente para quem nasce analfabeto);
  • O mundo se resumirá à religião. Nada que seja contra (ou diferente) dos credos da religião fará sentido para você. E é claro que isto o enfurecerá;
  • O mundo conspirará contra você. Todos querem atingi-lo, coisa que nunca antes neste país aconteceu. Cuide-se, pois todos serão seus inimigos;
  • A história pode parecer confusa para você. O que antes parecia uma coisa feia agora pode parecer perfeitamente normal. Mas não há que se preocupar, para que há vacina para isto, e você nem perceberá a diferença;
  • As tragédias perderão o sentido. Só o que importará é a proteção das demais PTestemunhas. Mesmo que duzentas pessoas morram, interesse é que ninguém culpe o Molusco por isto. A isto, chamaremos de A Lei do top-top;
  • Finalmente, mas sem esgotar as conseqüências, você será tentado a fazer alianças. Reunirá cobras e pardais, leões e corsas, e vai querer que eles não se estranhem. Mesmo porque isto é tarefa das PTestemunhas, que viverão se estranhando entre si, sempre em processos de fritura.
Ah, se você se interessou, corra. Parece que a fila é grande, mas as cadeiras são limitadas.

sábado, 26 de abril de 2008

Você me conhece?

Mais uma de Simply Red.

Brand new

De novo...

QUALIDADE JÁ!!!

Nestes tempos de correria, percebo que muitos de meus textos saíram com erros de digitação.
Peço desculpas, e os estou revisando na medida das possibilidades.

Sou um perfeccionista, mas eu e minha turma tínhamos uma regra: a de parar de revisar uma hora, pois senão o texto não saía nunca.

Mas revisar é preciso, publicar não é preciso.

Desculpem, vou ser mais cuidadoso.

A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

Este texto já foi publicado neste blog. Como o blog é meu, permito-me repeti-lo.

Nossas decisões são baseadas em informações. Mas estas informações podem ser incompletas. E se estiverem?

Bem, mesmo correndo o risco de estar errado, às vezes precisamos decidir. A pior decisão é a de não decidir. Procrastinar nunca, então.


A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.

A lei da colheita

Já falei do assunto aqui. Mas convém relembrar.

Stephen Covey, nos seu 7 Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes, trata do assunto como a progressão das coisas. A Lei da Colheita determina que vários passos devem ser dados, cada um a seu tempo, antes de ser possível colher frutos.

Os frutos (a colheita) são o objetivo. Mas, para chegar lá, temos de preparar a terra, semear, aguar, tratar, e esperar os tempos certos para o início de cada uma dessas ações. Não há como ter pressa na natureza, esta é uma verdade.

A lição é que podemos ter pressa também em nossos relacionamentos, sejam de que espécie forem. Os profissionais, os familiares, os afetivos. Nossos objetivos também têm de passar pelas ações certas, nos seus tempos corretos. Antecipar as coisas não ajuda, e muitas vezes atrapalha.

Assim, um passo de cada vez, e somente quando possível, este é o caminho. Vencer barreiras construídas pelo nosso comportamento, pela nossa história, ou pelo desconhecimento do outro, é um processo bem lento. Se a história é que levantou a barreira, o processo ainda há de ser mais lento. E não se derruba com um trator uma montanha que a história construiu.

A confiança, por exemplo, é uma dessas barreiras. Ou melhor, a falta de confiança. Se nossa história destruiu a credibilidade, e ela a faz com uma incrível rapidez, a reconstrução pode demorar tanto quanto a construção de uma pirâmide.

O processo deve ser paulatino, dosado, meticuloso. O elemento mais importante é a paciência. paciência que muitas vezes não existe. E, em vez de derrubar a barreira, damos a volta por ela, ou mudamos de caminho. Mas ela continua lá, esperando ser desconstruída. O preço vale a pena?
Se sim, paciência. Se não, sempre há os atalhos.

Você tem um amigo

Não sou do tipo que diz palavras vazias. Não sou do tipo que concorda somente no discurso, não sou do tipo que mente para confortar.

Gosto de ser direto, gosto de falar a verdade. Às vezes, digo o que a pessoa não quer ouvir. Outras vezes, talvez as piores, não digo coisas que ela quer ouvir.

Pessoalmente, quando tenho meus problemas, eu me isolo. Pode estar errado, pode ser que ninguém concorde com isto. Mas, da mesma forma que me prontifico a estar ao lado de alguém em dificuldade e que gosta disto, gostaria de ver meu desejo neste assunto respeitado.

Sozinho, consigo uma catarse que dificilmente conseguiria em companhia de outros. Contar e recontar a história, isto eu faço para mim mesmo. Racionalizar sobre elas, aí já é outra questão, e é disto que fujo.

O que não quer dizer que eu não seja um bom amigo nas horas de dificuldade. E pode ser que seja somente minha arrogância se manifestando nesta avaliação. Mas o fato é que sou um bom ouvinte, não dou palpites a não ser se instado a fazê-lo, e não tenho o hábito de reproduzir conversas para outras pessoas que nada têm a ver com o assunto.

Mas adoro a música abaixo:

quarta-feira, 23 de abril de 2008

De novo, Confúcio

Confúcio disse que não se toma banho no mesmo rio duas vezes. Eu concordo. Mas a vida nos avassala. Às vezes, engolimos verdades, que se mostram apenas percepções. Um grande amigo diz que contra fatos, não há argumentos. O mesmo amigo diz, outras vezes, que contra argumentos, não há fatos, naqueles casos de pessoas que subvertem a lógica das coisas.

Portanto, talvez, em ocasiões especiais e raras, tomemos banho duas vezes no mesmo rio. Mesmo que seja somente em decorrência de nossa vontade de moldar as realidades.

Afinal, o homem é o único animal que tem esse poder. O de imaginar uma verdade, e transformá-la em fato.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pessoas que brilham

Há pessoas que têm um poder especial, uma luz interior que rivaliza em intensidade com o sol. São aquelas pessoas que iluminam a alma das que a rodeiam, e fazem isto sem mesmo saber.

São pessoas de sorriso perene, são monas-lisas, mas em vez de enigma, bem-estar e felicidade.

Estas pessoas, com suas presenças, mesmo que efêmeras, mesmo com a velocidade de um ciclone extra-tropical, traduzem a vida num sorriso mágico e encantador.

A bárbarie em nós

Os que são próximos de mim sabem da minha dedicação à minha filha. Procuro ser pai e amigo, dando a ela a referência que julgo necessária para a vida. A gravidez que a trouxe ao mundo foi difícil, e passamos pelo risco de perdê-la várias vezes. Mas minha certeza era uma só: ela viria!

Hoje, somos amigos que, por acaso, sabem-se pai e filha. E compartilhamos de coisas inacreditáveis, tanto que só mesmo São Tomé.

Por este motivo, afastei-me do caso Isabella. Mecanismos de defesa meus, acho. Tratei aquilo como se fosse somente um enredo de filme B, em que alguém perpetrava contra uma inocência santa uma barbaridade. Tenho muita dificuldade em acreditar que isto seja possível. O fato é que a menina está morta, alguém cometeu essa barbaridade, espera-se que essa(s) pessoa(s) pague(m).

As notícias indicam pai e a sua esposa. Recomendo cuidado: a Escola Base ainda está (ou deveria estar) ribombando em nossos ouvidos.

O Brasil é um estado de direito. Quer dizer que somos regidos por leis, e estas leis pretendem organizar a vida em sociedade, proteger o cidadão e, eventualmente, puni-lo. A lei, em momento algum, se presta a ser uma arma de vingança. É um dever/direito do Estado, e somente do Estado, de punir alguém que teve comportamento reprovável, notadamente nos crimes. Repetindo: punição, nunca vingança.

As pedras jogadas contra o casal parecem pretender subverter essa ordem. Como se o Estado não mais nos representasse nessa punição, que queremos transformada em vingança. E contra alguém contra quem ainda não se pronunciou a justiça da forma que preconiza a lei, ou seja, ainda não foram julgados sem possibilidade de recurso (sentença transitada em julgado).

Quando digo que a lei nos protege, pretendo dizer que, se inocentes o pai da Isabella, ele não merece o linchamento físico tentado e o moral/psicológico executado. Por isto o processo existe. Se pronunciado culpado, a punição não será com pedradas, como não deve mesmo ser em um país que se diz civilizado. Mas com a perda da liberdade, que é a pena cominada. Isto, repito, se culpado.

Ouço pessoas dizerem:

- Mas está na cara.
- Há alguma dúvida?
- Se não foram eles, que foi então?

E ouso responder: se está tão óbvio, podemos dispensar o poder judiciário e fazer justiça com nossas mãos (e pedras, e paus)? Claro que não, claro que não. O processo vai se encarregar de provar a culpa e aplicar a pena que seja compatível com a ofensa e com as circunstâncias dos envolvidos.

Sei, muito técnico e frio. Como deve ser a justiça. Daí a existência daquela venda. Precisamos acreditar nela (justiça), pois é o que embasa nossas relações. Que não seja pena alguma (não punição), mas que não seja demasiado. Que seja justa.

Como é de minha natureza, agora mesmo trato de propor outra questão: acreditar na justiça que libertou Cacciola, naquela que imperou no nosso órgão representativo ao tratar do senador que pagava as despesas pessoas com dinheiro de outrem? Naquela justiça que diz-se tardar, e somente tardar?

É, concordo que é difícil. Mas não podemos nos entregar, moralmente falando. Admitir que a lei não seja nosso mantra é admitir que a sociedade não existe, existem pessoas que coexistem e praticam as ações de acordo com sua crença. Não é disto que precisamos.

Quando ouço críticas ao juiz que fez isto ou aquilo, penso comigo se ele cumpriu a lei. Se não cumpriu, a decisão há de ser reformada. Se cumpriu, o que está errado? O juiz ou a lei?

Estamos tão perdidos em termos de valores em relação às normas que pretendemos que os juízes façam as leis. E exatamente aquelas que queremos, da forma que queremos. Ou seja, uma ditadura (sim, ditadura) dos juízes. Que não querem, parece-me, este papel.

As leis são feitas pelo Congresso. Que é a expressão de nossa vontade. Ou deveria ser. E só não é porque não exigimos, não participamos, não conferimos a conta. Ora, tudo pode mudar. São milhões e milhões de votos. Que escolhem aqueles que, em meio a tanta necessidade, aumentam o valor da verba de despesas.

Quem está preocupado? O estado de São Paulo está, e muito. Com a decisão próxima do campeonato paulista, digo. Com leis, representantes, vinganças? Não, acho que não.

As barbaridades continuarão. Com ou sem a mudança da lei. Mas o nosso sentido pessoal de vingança, aquele prazer interior de que a punição será justa, e existirá, já isto não se pode garantir.

Mas tudo isto é mera tergiversação, pois anda trará aquela criança de volta. Lei, vingança, justiça, advogados, juízes, promotores... nada disto seria necessário se, em vez de vivemos num Estado de direito, vivêssemos num mundo de valores, de moral. Quando esta falha é que aqueles operadores do direito entram.

Muita lei e pouca moral, os males do Brasil são (com a licença a Macunaíma/Mário de Andrade, parafraseados aqui).

Em homenagem à Isabella, de um pai cujo amor e respeito pela filha não tem tamanho e que ainda espera, puerilmente, que todos acordem desse pesadelo.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Ecos do passado

Grande parte dos arrependimentos que ouço tratam das escolhas que tomamos.

- Se eu tivesse...
- Se eu fosse...
- Se eu soubesse...

Acho que essas incertezas fazem parte da vida. Apesar disto (ou por causa disto) não acredito em arrependimentos. Mas em aprendizado. Cada caminho só se torna conhecido após o trilharmos. Antes disto, é somente uma possibilidade, uma incógnita, uma verdade que não se materializa porque não se inicia.

Cada decisão que tomamos tem seu preço. Cada passo exige força, mínima que seja, e tem seu custo, que pode ser a dor. Ou a alegria, embora esta seja normalmente efêmera. Mas, fugaz que seja, esta é a principal motivadora das decisões: a alegria/felicidade.

Por minha experiência, as causas inconseqüentes permitem o caminho da alegria. Mas aqueles passos que repercutirão pelo resto de nossas vidas não podem deixar esse elemento (alegria) determinar os rumos. A vida exige seriedade, e a seriedade exige racionalismo.

Por isto, algumas vezes tomamos decisões dolorosas. Frustrantes, angustiantes, são decisões necessárias como respirar.

A vida é ciclíca, e algumas vezes nos deparamos com uma segunda chance. Uma chance de definir nossas decisões passadas. E aqui entra o aprendizado O que, exatamente, precisa ser feito para que a alegria/felicidade sejam elementos presentes?

Certa vez, numa discussão em Brasília, um amigo me disse:

- Minha dimensão política (do cérebro) me diz que não é hora de apresentarmos esse projeto, pois a rejeição será muito forte.

Ao que respondi:

- Já a minha dimensão política me pergunta: o que precisamos fazer para apresentar com chance de sucesso esta proposta?

O que quero dizer é que não somos pau (da música, "pau que nasce torto morre torto"). Temos, dentre todos os seres da Terra, essa genial possibilidade de interferir no futuro. Assim, nossas decisões, depois "redecisões", trazem o poder de incorporar conhecimento. E, mais, muito mais, trazem o poder de trazer a vontade. O aspecto volitivo, que pertence à raça humana, que viabiliza invenções, que faz com que a soma de um mais um seja muito mais que dois, que faz com que nossos limites sejam somente relativos, pois os extrapolamos na medida de nossa vontade/necessidade. Nossa ação, refinada pelo sofrimento, dificuldades, percepções, é a ação assertiva: o que quero? E o que preciso fazer para tornar realidade essa vontade?

Programação neurolingüística? Não. Somente um processo de aprendizagem, e a aplicação dessa inteligência adquirida.

O caso se resume no seguinte: vai acontecer o que eu quero que aconteça. Se tivermos cúmplices (no sentido de parceiros), nos multiplicamos na determinação e na vontade. Os caminhos árduos continuarão a sê-lo, mas nossa percepção vai abrandá-lo, em função de nossa motivação. Os problemas continuarão a existir, mas nossa dificuldade será pequena, perto da força de nossa vontade.

Auto-ajuda demais, né? Não! É uma crença arraigada, enraizada em mim. Vivo segundo esse credo. E espero, sinceramente, que essas oportunidades não sejam desperdiçadas.

Somos especiais, todos, cada um a seu jeito. Mas quando duas pessoas resolvem ser especiais em conjunto, a sinergia diz o seguinte: nem o céu é o limite!

Não entre pela saída. Mas não se preocupe se isto acontecer...

A propósito: a proposta foi apresentada e aprovada. "O que preciso fazer" é uma técnica muito poderosa.

Piada sem graça...

Brinco muito com este feriado. Costumo dizer que quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, ele já encontrou Tiradentes esquartejado e pendurado pelas ruas do Rio de Janeiro. E, enquanto isto, corria o velório de Tancredo Neves...

sábado, 19 de abril de 2008

A Era da Informação

Alvin Toffler prenunciou as mudanças em dois livros: A Terceira Onda e Powershift. A humanidade passou de um sistema de produção e geração de riqueza para outros. O foco agora é a informação, e é pela informação basicamente que se iniciam os mesmos processos de geração de riqueza. Bill Gates, como provedor de soluções para armazenamento e acesso à informação, é um fiel exemplo disto. Há outros, mas Gates é o ícone.

Segundo Toffler, essa transformação é tão poderosa que já merecia ser uma era: a Era da Informação.

Na década de 80, aconteceram os primeiros movimentos no sentido de estabelecer comunicações entre empresas para alavancar os negócios. O EDI (Eletronic Data Interchange) surgiu para conectar uma rede de supermercados com um fornecedor, que promovia o ressuprimento do estoque na medidas em que as vendas aconteciam. Modernamente, essa abordagem (entre parceiros de negócios) é denominada genericamente como B2B (business to business), e é mais praticada para compras digitais. Mas, na essência, é a informação compartilhada que aprimora processos de negócios. O ponto é que essa evolução aconteceu porque parceiros se uniram e, com poder econômico e com um ganho esperado, fizeram o futuro acontecer.

No Brasil, essa troca de informações tem alguns ótimos exemplos. O Serviço de Compensação de Cheques e Outros papéis do Banco do Brasil/Banco Central é um dos mais eficientes do mundo, e é baseado em processamento eletrônico de dados. Neste caso, houve uma influência direta da inflação, que galopava sem intervalos. O interesse econômico determinou o aperfeiçoamento do sistema. Outro exemplo? O SPB (Sistema Brasileiro de Pagamentos), que faz operações interbancárias online.

Outro exemplo, na mesma linha, é a transação de cartões de débito, que reduz (ou elimina) aquele velho risco do cheque sem provisão (fundos). Os pontos de venda têm contato direto com o banco, e, embora paguem por isto, imagina-se que o custo seja menor que o d inadimplência.

Por falar em inadimplência, o SERASA opera um bem sucedido controle de inadimplentes. Serviço a que todos têm acesso. Nós, mortais, porque podemos figurar ali. Outros, os barões da economia, porque podem nos pôr ali e consultar para ver se têm interesse em negociar conosco. Desnecessário dizer que o interesse financeiro, neste caso, possibilitou, viabilizou e exigiu essa centralização de dados.


Com tantos exemplos, no Brasil e no mundo, algumas situações ainda não têm explicação. Vejamos:
  • ao nascermos, temos de gerar uma certidão de nascimento; traz dados básicos (nome do pai, da mãe, local e data de nascimento, etc);
  • depois um tempo, utilizamos essa certidão para fazermos nosso Registro Geral, o famoso RG, onde constam o nome do pai, o nome da mãe, local e data de nascimento), etc;
  • Em seguida, temos nos nos inscrever no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF). Que nos habilita a uma séria de atividades perante a sociedade (abrir contas em bancos, por exemplo), mas que nos amarra definitivamente no sistema tributário do Brasil;
  • Casamos, precisamos de uma certidão de casamento;
  • Divorciamos, precisamos averbar o fato na mesma certidão de casamento;
  • Ainda temos o PIS/PASEP, o FGTS, a certidão de reservista, o CNH (a carteira de motorista), e outros que não me vêm à cabeça agora;
  • Morremos, e só estaremos de fato mortos se a competente certidão de óbito for emitida.
Imagino que somente quando um interesse econômico monstruoso existir sobre a unificação de nossas informações é que será possível automatizarmos e agruparmos esses registros todos. Que poderia ser tão simples que é até insultante.

Vejamos: nascemos, e somos registrados no, digamos, RG. Registro esse que implicaria nosso nascimento, veja só que lógica boba. Quando começarmos a contribuir para o fisco, a receita federal, somente consultando o RG já teria nossos dados. Idem para PIS/PASEP, CNH, etc. Ao casarmos, criamos um vínculo com o cônjuge nos cadastros do RG. Da mesma forma que criamos com nossos pais no registro de nossa existência. E, veja que loucura, a morte seria registrada também no ... RG. Simples demais, deve haver algo errado com esse raciocínio tão reducionista.

Talvez a grande dificuldade esteja relacionada com o texto dos igníferos. Quantos interesses existem na manutenção do esquema atual? Por exemplo, qual seria o impacto nos cartórios, que emitem as certidões? Outra, com menos atribuições de controle e processos, quantos órgãos dos governos seriam extintos/reduzidos? O que equivale dizer, menos cargos para barganhar.

Enquanto isto, vamos nós, de órgão em órgão, tratando de atualizar nossos documentos e certidões. Porque, embora tenhamos um dos maiores índices de impostos do mundo, não temos poder econômico para exigir essas facilidades em nossas vidas.

A Era da Informação, nos últimos governos, é comparável com o Ministério da Verdade de George Orwell: "o que é ruim a gente esconde, o que é bom a gente fatura" (Segundo Rúbens Ricúpero). Em 1984, de Orwell, as informações eram constantemente modificadas, de acordo com o governo e situações vigentes.

Pensando bem, nossa desinformação presta bons serviços para alguns. Pena que não à população.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Colhendo o que plantamos

Numa manhã chuvosa em São Paulo, depois de uma noite bem molhada em todo o estado, chamou-me a atenção a quantidade de garrafas tipo pet boiando no Rio Tietê. Como se fosse uma decoração (e, de fato, mais à frente havia gigantescas garrafas pet decorando as margens do rio), vinham atropeladas pela correnteza, agrupadas como se fossem um bando.

Lembrei-me de dois episódios. Num deles, após uma enchente daquelas que denuncia a rivalidade entre São Paulo (a cidade) e São Pedro (o dono da torneira), um secretário municipal paulistano disse que, se as pessoas não jogassem tanto lixo nas ruas, os bueiros não entupiriam tanto e as enchentes seriam menos freqüentes. Noutro episódio, o secretário de justiça do Rio de Janeiro colocou parte da culpa pela criminalidade do estado nos usuários de drogas, já que eles alimentavam toda a rede marginal à lei.

Num e noutro casos os declarantes foram impiedosamente apedrejados pela imprensa (principalmente). Por vários dias se justificaram, até findarem com o famoso "não foi bem isto o que eu quis dizer".

Pois bem, eu que não sou secretário, e a quem a imprensa não apedrejará, digo: se o cidadão o fosse no dever como é para exigir seu direito, o Brasil seria muito, muito melhor. Pergunto: estão errados os senhores que disseram aquilo?

Fábio Seixas (repórter da Folha de São Paulo) no seu blog denunciou (marca, cor e placa do carro), dia destes, um cidadão (?!?!) que atirou lixo pela janela do veículo e houve quem o criticasse por isto. A grande maioria aprovou, é verdade, mas existiu, sim, quem o criticasse pela denúncia.

A quantidade de garrafas boiando no rio me fez concluir que o secretário tem razão. E que as mesmas pessoas que ficam horas trancadas no trânsito das enchentes tem parcela de responsabilidade nisto, por ação direta ou omissão cômoda.

Quanto às drogas, o secretário (hoje ex) também tem razão. O consumidor tem culpa, e não é pequena. Alimenta uma rede que só tende a crescer, e as vítimas, quando não são os próprios consumidores, são pessoas muito próximas a eles.

A noção de cidadania (esta bela palavra, famosa depois da constituição cidadã de 1988) precisa ser estendida e entendida. Não somos cidadãos somente por exigir nossos direitos. também precisamos cumprir com os deveres. Esta última parte está meio esquecida, e alguns de nossos problemas decorrem disto.

E, para não dizer que não falei do molusco, nosso presidente, quando não chama à razão seus aloprados e outros descerebrados, somente reforça esse comportamento entre seus acólitos. Que acham que ser é tudo, e fazer é somente uma possibilidade. Mas que no caso deles ambas as ações são (ou deveriam ser) simultâneas.

Como a garrafa pet respingou no presidente? Simples. Se a lei diz uma coisa, precisamos obedecê-la. No mínimo por medo da punição, melhor se por respeito à regra. Mas se fazemos a coisa certa, independente de lei (daquela escrita bem longo, no deserto de Goiás), mas de acordo com nossos valores, estamos obedecendo à moral. Nossa moral, pode ser, mas respeitamos um valor em que acreditamos, em que escolhemos acreditar. O respingo aí está: não esqueçam o que escrevi, ou o que falei. Nossos valores são indeléveis (e indeletáveis...)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A vida imita a ... vida!

Hoje, ouvindo músicas antigas, ouço Adoniran Barbosa falando do cobertor:

-Deus dá o frio, conforme o cobertor...

Fiquei a pensar na vida, nas coincidências que nos levam a acreditar que estamos prontos para aquilo que nos acontece. Como de praxe, discordo do senso comum. Acho que é uma medida compensatória, nossa, quando resolvemos enfrentar os problemas, achar que estamos prontos. Ou, como diz a música, que temos o cobertor certo, ou o frio é que está certo.

Não acredito em pedir para um ser superior para melhorar as coisas. Assim como não acredito que um ser superior o faria somente com base em pedidos. Acredito, sim, é que tenhamos, em nós, porções desse ser superior e nos forneçamos a força para lidar com as coisas como elas são. E, mais, para que busquemos forças para mudar as coisas que podem ser mudadas.

Sei, está parecendo coisa do AA. Mas não é, necessariamente, Stephen Covey (outra vez ele) nos apresenta o que ele chama de círculo de influência, onde se localizam as coisas que podemos influenciar. Ele está inscrito no que ele chama de Círculo das preocupações. E a grande lição é nos focarmos no círculo de influência, pois o que não pode ser remediado...



Outra grande lição: buscar aumentar sempre esse círculo. De forma que tenhamos influência, em algum momento, naquelas coisas que nos incomodam, mas que está ao nosso alcance mudar.
Em momento nenhum ele defende que não não ocupemos do resto do círculo das preocupações. Mas que o tratemos com a energia possível, não aquela exagerada, que nos exaure e impossibilita a ação no círculo de influência.

As coisas que nos sucedem ora estão no círculo de influência, ora estão fora dele. Quando decorrem de decisões nossas, o controle é apenas relativo. Quando não, o controle é impossível. Como as coisas se insinuam em nossa vida, ou seja, temos indícios do que está por acontecer, ou está acontecendo, nossa proatividade é o diferencial.

Bem, tudo isto para dizer o seguinte: estamos no controle de nossas vidas. Se engolimos sapos, é porque algum motivo ou objetivo está a determinar que assim seja. Se cometemos erros, é porque não pesamos as conseqüências, ou não escutamos a razão. A única coisa certa é que, aconteça o que acontecer, temos de escolher o caminho.

Eu? Sempre a do círculo de influência. Mesmo que, para tanto, tenha de encher um pouco esse grande balão.

Ah,. e custe o que custar!


A imagem é copiada do livro " Os 7 Hábitos das Pessoas Muito Eficientes", de Stephen Covey, Editora Best Seller.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Lucros e credos

Em 1982 o mundo foi surpreendido por uma onda de mortes causadas por ingestão do Tylenol, fabricado pela Johnson e Johnson. Descobriu-se, mais tarde, que o fabricante nada tinha a ver com essasmortes, que decorriam de adulteração criminosa das embalagens.

Tive contato com este case num livro sobrem ética empresarial. O livro descrevia como empresas tratavam seus valores, e a J&J os tinha bem escritos e entendidos. O livro mostra que a rapidez da tomada de decisão não foi tranqüila. É claro que os custos envolvidos na decisão foram brandidos por uns e outros, alguns defendendo, inclusive, que como a adulteração acontecia depois da entrega dos produtos aos pontos de vendas, já cessara a responsabilidade da fabricante.

Todos envolvidos na dura decisão, até que alguém chamou a atenção para o credo da empresa. Num dos itens, estava estabelecido que a missão da empresa incluía privilegiar a saúde de seus consumidores. Assim, sem considerar outros argumentos, a empresa cumpriu o que dizia sua missão: protegeu seus clientes. Retirou do mercado os produtos que poderiam estar envenenados, e contabilizou suas perdas em milhões de dólares.

Estudos mostraram que a confiança dos consumidores na companhia cresceu após o episódio, em que ela se postou de maneira ética e não comercial. Assim, o custo da operação nunca poderá ser confrontado com os benefícios, pois que esta é uma mera tentativa de adivinhar o imponderável.

Cito tudo isto porque uma empresa automobilística foi obrigada, pela justiça, a promover um recall de um determinado automóvel, que apresentava uma possibilidade de ferimentos ou mesmo mutilação nos usuários, em determinadas circunstâncias. Como diz o blog da Maria Inês Dolci, a empresa tentou transferir a responsabilidade para os consumidores, que teriam de ler o manual antes da operação (qualquer operação, pelo jeito).

Não cito o nome da empresa automobilística porque todos sabem qual é. Cito a Johnson & Johnson pelo exemplo, que acho que merece ser sublinhado. Lamento a postura da montadora porque nesta terra de Macunaíma o usuário é tratado assim mesmo: como o pior dos estorvos. Assim que compra o bem, já passa a ser o vilão da história.

O bom é que há montadoras que já aposentaram as carroças de Collor. A competição agora trata de colocar algumas coisas no lugar. Os consumidores somos burros, na visão dessa montadora? Passemos à próxima, que nos trate decentemente.

Em tempo: tenho um carro que não é dessa montadora, e que faz incríveis dezessete kilômetros por litro de gasolina nas estradas. De manutenção barata, pois os defeitos são raros, estou satisfeitíssimo com o carro. Só troco este carro por um igual ou da mesma marca. Pois, no fundo, melhor que uma boa assistência técnica de uma fábrica, é não precisar dela. O que é o meu caso. Daí que fui seduzido.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Repensando o pensar

Sou do tipo de lê várias vezes o mesmo livro, o mesmo texto. Gosto de comparar isto ao rio de Heráclito e Confúcio: o rio é o mesmo, as águas são outras num fluir contínuo e sem fim. A cada leitura, uma novidade, uma descoberta.

Em minha vida, com meus textos prediletos, acontece o mesmo. Hoje, foi com as "Máscaras".

Leio e releio, sempre achando nas palavras outras águas, de acordo com meu humor ou minha necessidade. Acho que isto é a mágica da leitura. Se ainda não conhece o texto, fica o convite: leia, vale a pena. É só clicar no link.

Coruja!

Apaixonada pelos Beatles, minha filha fez o desenho acima.

Com grande satisfação, vejo brotar nela vocações artísticas das mais variadas, sem que isto a deixe descuidar-se de seus estudos.

É, o pai pode mesmo ser coruja, mas que a menina tem talento, isto tem.

sábado, 5 de abril de 2008

No cravo e na ferradura

O noticiário mostrou tumulto na apresentação dos acusados pela morte da menina Isabella, que é o crime que está comovendo o Brasil. Pelo que vi, o tumulto não foi causado senão pela imprensa.

Alguns ainda devem lembrar o caso da Escola Base, em que os acusados provaram sua inocência na justiça. Na opinião pública, entretanto, ficou a culpa, reverberada pela mídia pelas declarações inconseqüentes de algumas autoridades.

Foi a imprensa quem delatou o esquema PC-Collor. Também o mensalão, também o mensalinho... temos vários exemplos de contribuição da imprensa para com o Brasil. Mas, nestes casos em que a comoção dá o tom. a imprensa mostra o pior de si.

Hoje li que a mãe da Isabella foi à escola buscar os trabalhos da filha. Pergunto: há relevância nisto? Ou é uma ação para manter a atenção no caso, como se fosse necessário?

Pode ser que os pais (o pai verdadeiro e a madrasta) sejam culpados. Como também pode ser que sejam inocentes. Como vivemos num país em que a culpa deve ser provada, ou todos são inocentes, deveríamos deixar a investigação prosseguir. Mas não temos, ou melhor, a imprensa não tem dado chance para essa presunção de inocência. Ao contrário.

Não temos ainda um país de leis perfeitas. Ainda temos, sob a lei, uma peneira que permite a alguns o seu rigor, a outros os favores de amigos. Mas, numa questão tão básica, devemos ter serenidade: inocência até que se prove o contrário.

E o país que forma opinião mais pela imprensa deveria cobrar dela a mesma coisa: serenidade (e sensatez). Quem julga é o juiz. Esta é a regra.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O império contra ataca

Escrevam o que esqueci.

  • Lula não vai mandar apurar a denúncia do dossiê contra Fernando Henrique Cardoso. E vai continuar fazendo do PAC seu palanque eleitoral, para fazer de Dilma sua sucessora.
  • O Congresso vai continuar sendo tratado a brioches, porque Lula quer aumentar (ainda mais) sua popularidade.
  • Os políticos continuarão a cobrar pedágios por suas ações (quaisquer que sejam), porque sabem que a impunidade é garantida.
  • Os políticos do PT continuarão a minar o governo 9qualquer governo, inclusive o deles), porque ainda não se labuzaram o suficiente com o mel do poder).
  • O PSDB vai continuar a brigar em torno de nomes em detrimento da discussão sobre o que é melhor para o Brasil.
  • O povo continuará a ser omisso perante os atos de seus governantes.
  • A chamada "opinião pública" continuará sendo somente a "opinião publicada", ou seja, as notícias dos jornais sobre os demandos do(s) governo(s). Ou seja, é a opinião dos jornalistas.
  • O povo continuará morrendo de dengue no Brasil (e de outras doenças, que estão só aguardando sua vez na fila).

Como seria bom dizer que estas tragédias não passam de "primeiro de abril"...

Efemérides

  1. Lula vai demitir todos os apadrinhados políticos e substituir por pessoas de reconhecida capacidade para os cargos do governo;
  2. George W. Bush admitiu que não havia armas de destruição em massa no Iraque e que a guerra foi um erro;
  3. Galvão Bueno reconheceu que os campeonatos americanos de automobilismo são mais em emocionantes que a Fórmula 1;
  4. O governo admitiu culpa na epidemia da dengue do Rio de Janeiro;
  5. Maradona disse que Pelé é o rei do futebol;
  6. Schumacher afirmou, em entrevista, que só foi campeão devido aos conselhos de Rubinho Barrichelo;
  7. O Pânico, da RedeTV, vai estrear um programa educativo na TV Cultura.

Vale lembrar: Primeiro de abril...