quarta-feira, 12 de março de 2008

A voz dos sufocados

Quando falo da experiência de Milgram, aquela em que comportamentos claramente danosos são aceitos por pessoas, desde que alguém se responsabilize por isto, manifesto minha indignação com a situação. Mas algumas manifestações de amigos, conhecidos e, principalmente, pessoas com quem tenho contato profissional, me levaram a analisar a questão sem a contaminação de minha posição pessoal.

Rui Mattos, em seu livro Gerência e Democracia nas Organizações, trata da greve psicológica, que ele classifica como um cruzar de braços mental, em que pessoas numa organização, levados por questões de motivação (falta, no caso), desistem de participar dos processos, e obedecem cegamente às ordens, por mais danosas que eles as percebam.

Pois bem, estas duas abordagens, para mim, estão separados por uma linha muito tênue, e é difícil dizer quando começa uma e a outra se inicia.

Numa determinada ocasião, fui chamado para uma conversa com um colega de trabalho (da minha época de estatal). Ele recomendou, primeiro com muito tato e depois sem nenhum pudor, que eu e minha equipe tratássemos de trabalhar menos, pois "estava pegando mal" nossa produtividade. Estávamos em Brasília, afinal, e por lá as coisas era mais leves... E aqui um terceiro fator nessa questão dos comportamentos inadequados: a necessidade de aceitação (ou o temor da rejeição, ou ...).

A base de tudo, acredito, se divide por muitos motivadores. Cada qual tem o seu, a experiência de Milgram nos oferece um exemplo claro de uma faceta da questão. Mas o termo central, aquele que decide e dirige, este se encontra no individuo. Este, com seu conjunto axiológico, tem o poder de dizer sim ou não para suas demandas. Paga os preços por suas escolhas, é verdade, mas se coloca na direção da sua vida. Quando permite (e permite é um termo exato) que outros decidam por si, abdica do direito de escolher. Passa a ser um boi na manada, com toda autoridade que bois têm: nenhuma.

Se o conjunto de valores da pessoas não é suficiente para ele decidir sobre comportamentos que certamente afetam outras pessoas, perguntemos: que valores são esses?

Estamos acostumados a ver, na mídia, notícias de garis que devolvem pacotes de dinheiros e valores que levariam muitos para angariar com seus salários. Mas as notícias abrangem somente as somas devolvidas, pois as embolsadas não são conhecidas, não geram notícias. mas que há, certamente há. Aqueles que devolvem se enchem de orgulho para dizer que sua honra é mais importante que qualquer valor. Provado pela devolução, claro.Por que é que os exemplos de honra sempre vêm do mais humilde?

Há escolha em nossas vidas. A primeira: escolher comandá-la.

Sei, hoje estou piegas...

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