sábado, 15 de março de 2008

Mudar para não mudar?

Estes dias fui questionado sobre minha saída da empresa estatal em que trabalhei. Por causa da posição, do tempo de serviço, do envolvimento e investimento pessoal, me perguntaram como eu era louco de sair de tal emprego.

Quando eu estava em Brasília, era um gerente de crises. Cada vez que um órgão interno estava insatisfeito com nossa área (Organizações, Sistemas e Métodos), eu ia para servir de muro de lamentações e traçar estratégias de melhoria.

Mas não eram somente lamentações. Algumas vezes, um ambiente muito hostil me esperava, e aprendi a engolir sapos. Fritos, cozidos, sashimi de sapo, inteiros, aos pedaços, aos bandos.

Tudo isto tinha um custo emocional, claro. cada vez que propunha melhorias, comprometia meu nome na adoção dessas soluções. E como nem tudo dependia de mim, mas de articulações que algumas vezes esbarravam ou na política ou na vocação dos funcionários que têm estabilidade de emprego, o resultado poderia demorar mais que o planejado.

Isto acarretava um stress que mais de uma vez me levou ao cardiologista, embora ainda muito jovem, com fortes dores no peito, sempre diagnosticadas como isto mesmo: stress.

Um dia, soubemos de um colega nosso que, mal entrado na casa dos trinta anos de idade, sofreu um infarto fulminante e morreu na mesa do trabalho.

Para ajudar, sucessivas ações de grande impacto foram empreendidas pela empresa, sempre com resultados pequenos em termos de produtividade, mas sempre com altos custos emocionais/pessoais por parte dos empregados.

Coloquei na balança os prós e os contras, e achei que melhor que sobreviver, era viver. E isto só seria possível fira da empresa.

Não foi uma decisão fácil, pois tinha metas (ambiciosas) na empresa. Sempre me comprometi com alguns caminhos, e tinha meu reconhecimento por isto. Em algumas áreas, eu fazia parte de pequenos grupos, no que se refere ao conhecimento das atividades, coisa que só se consegue com muita dedicação. Ainda assim, queria ser feliz, e ali não estava acontecendo.

Logo em seguida à saída, muitas dificuldades, algumas não previstas, outras já esperadas. O fato é que, com paciência e perseverança, e contando com a mesma dedicação de sempre, as coisas foram entrando nos eixos e a vida foi voltando ao normal. Com algumas diferenças óbvias.

A proximidade da família, a saúde melhor cuidada, os amigos mais próximos. Hoje em dia parecem sonhos os momentos que tive naquela empresa. Distantes, já embotados, parecem ser memórias de outra pessoa.

Meu stress ainda existe, Mais por características pessoais, menos pela impotência diante de situações indesejadas. Mas num patamar completamente diferente, e num contexto que mitiga suas conseqüências. Vejo meu cardiologista uma vez ao ano, quase que burocraticamente, como numa obrigação. Ele sempre se surpreende com minha forma física e mental, e parece mesmo que estou andando para trás, cronologicamente falando.

Pude viver, pude conviver, fiquei mais leve depois que saí da empresa. Isto não tem preço. Mas as pessoas que somente enxergam rótulos não conseguem ver isto. O salário, o status, a segurança (de resto, falsa) que a posição ofereciam ainda deixa (nos outros) um sentimento de perda.

Ser feliz, não tem preço!

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