segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Vai dar pé

Ainda convalescendo do ataque da TV assassina, o que mais sinto falta é de correr. Incrível, mas acho que se tornou um vício. Talvez um bom vício, mas ainda assim um vício.

Quando eu trabalhava em empresa estatal, não me preocupava com isto. Era sedentário assumido, e não estava nem um pouco sensibilizado pelos males anunciados.

O nível de stress era altíssimo. Empresas estatais não são uma maravilha de organização, e têm um componente político que só agrava o quadro. Não importa se você está do lado da "situação" ou da "oposição". Pois uma horas as coisas mudam.

Para ajudar, quando eu estava em Brasília, era o que se pode chamar de "gerente de crises". Sempre que alguém queria reclamar de algo errado, lá ia eu para ouvir. E as reclamações eram de todos os tons. Gritava-se mais ou menos, mas era uma gritaria. Ou seja, alguém tinha de engolir o sapo.

De outro lado, funcionários de estatais, com poucas e honrosas exceções, não são exatamente participativos (vim a descobrir, mais tarde, que são mais que os da iniciativa privada. Mas este desconhecimento, na época, agravou um quadro). E a luta contra uma cultura interna é sempre desgastante demais.

Pois bem, os murros em pontas de facas (plural) cobraram seu preço. Um dia, meu cardilogista, já com vários atendimentos para dor no peito, conversou comigo por mais de uma hora no seu consultório. Primeiro, eu era jovem demais para ter problemas cardíacos, e não os tinha (embora um colega nossa tenha morrido de enfarte na sua mesa de trabalho, e era de minha idade). Segundo, minha vida tinha componentes que, se não aguçavam o stress, não colaboravam para seu tratamento.

Como lição de casa, saí dali para enfrentar meu sedentarismo e fazer terapia. Esta não durou mais que duas sessões. Passo.

Mas o sedentarismo passou a ser enfrentado com caminhadas. Nunca gostei de correr. Até que um dia a energia em mim exigiu algo mais que a caminhada. E passei a correr.

Sem fôlego no início, cansava e parava sempre no mesmo lugar. E indignei-me com isto. Um dia desafiei-me: vou até ali (um determinado ponto, mais afastado que meu limite natural). E fui. Contra o "cansaço", enfrentei o limite.

E aprendi. Sem o limite, qualquer lugar é ponto de fuga. Com o limite, não há ponto de fuga. Há meta, há objetivo, e parece que pulmões e pernas se renovam. Não é fácil, mas é motivador.

Às vezes o cansaço cobrava seus preços. Que eu sempre comparei com outro preço. Porque eu sempre me prometia um mínimo de distância percorrida. Assim, o preço do cansaço era comparado ao preço da quebra da promessa a mim mesmo.

Stephen Covey explora bem as promessas feitas a nós mesmos: se não conseguimos manter uma promessa destas, que dirá aquelas que fazemos a outras pessoas?

Corria, então, para cumprir uma obrigação para comigo mesmo. E gostava cada vez mais das conquistas de cada dia. E renovava as promessas a cada corrida, assumindo sempre novos compromissos.

Hoje, aqui parado em função das fraturas, lembro disto tudo para justificar essa necessidade louca de correr. E lembro dos benefícios: o fôlego, a atividade física, a disciplina para comigo mesmo, a necessidade de comer bem.

Preciso voltar logo a correr. Vamos esperar dar pé.

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