terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Paradigmas e reações

Muitas vezes sou criticado por causa de minhas reações. Ou pela falta delas. Nem sempre isto foi assim. Até uma determinada época em minha vida, fui dominado pelas reações. E os resultados nem sempre foram bons.

Depois de muitos revezes, e pela disciplina pessoal, consegui estabelecer a ordem das coisas: EU estou no comando de minhas reações. Isto tem suas conseqüências. Quando não reajo negativamente a alguma coisa sobre a qual tenho informações suficientes, alguns me acham apático. Por outro lado, quando faço o mesmo com aquelas situações cujas informações são do meu controle, a acusação é a de ser mais que apático: é a de ser inerte mesmo.

Quando fraturei os dedos de meu pé, um amigo me provocou:

- Aposto que nem assim você xingou e falou um palavrão.

Verdade. Não sei o que algumas pessoas vêem no palavrão como elemento catártico. Não sei como ele permite "extravasar" a raiva e frustração. Sei somente que escolhi não dizê-lo, e nem um evento como um televisor me agredindo me faria rever esta postura. O fato é que o fato aconteceu, e posso escolher minha reação. E assim fiz.

Mas, divaguei. O ponto é que algumas vezes nossas reações são incompletas em relação ao conhecimento da situação. Às vezes julgamos e reagimos sem ter total conhecimento das origem de certos fatos. Como disse, tem seu custo. E não precisamos pagá-lo.

Cada vez que falo disto me vem à mente a história que reproduzo abaixo:

Eu me recordo de uma mudança de paradigma que me aconteceu em uma manhã de domingo, no metrô de Nova York. As pessoas esta­vam calmamente sentadas, lendo jornais, divagando, descansando com os olhos semicerrados. Era uma cena calma, tranqüila.
Subitamente um homem entrou no vagão do metrô com os filhos.
As crianças faziam algazarra e se comportavam mal, de modo que o clima mudou instantaneamente.
O homem sentou-se a meu lado e fechou os olhos, aparentemente ignorando a situação. As crianças corriam de um lado para o outro, ati­ravam coisas e chegavam até a puxar os jornais dos passageiros, inco­modando a todos. Mesmo assim o homem a meu lado não fazia nada.
Ficou impossível evitar a irritação. Eu não conseguia acreditar que ele pudesse ser tão insensível a ponto de deixar que seus filhos incomo­dassem os outros daquele jeito sem tomar uma atitude. Dava para per­ceber facilmente que as demais pessoas estavam irritadas também. A certa altura, enquanto ainda conseguia manter a calma e o controle, virei para ele e disse:
- Senhor, seus filhos estão perturbando muitas pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?
O homem olhou para mim, como se estivesse tomando consciência da situação naquele exato momento, e disse calmamente:
- Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que deveria fazer algu­ma coisa. Acabamos de sair do hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Eu não sei o que pensar, e parece que eles também não con­seguem lidar com isso.
Podem imaginar o que senti naquele momento? Meu paradigma mu­dou. De repente, eu vi as coisas de um modo diferente, e como eu estava vendo as coisas de outro modo, eu pensava, sentia e agia de um jeito diferente. Minha irritação desapareceu. Não precisava mais controlar minha atitude ou meu comportamento, meu coração ficou inundado com o sofrimento daquele homem. Os sentimentos de compaixão e so­lidariedade fluíram livremente.
- Sua esposa acabou de morrer? Sinto muito. Gostaria de falar so­bre isso? Posso ajudar em alguma coisa? - Tudo mudou naquele momento.
Muita gente passa por uma experiência fundamental similar de mu­dança no pensamento quando enfrenta uma crise séria, encarando suas prioridades sob nova luz. Isso também acontece quando as pessoas as­sumem repentinamente novos papéis, como marido, esposa, pai, avô, gerente ou líder.
Poderíamos passar semanas, meses ou até mesmo anos usando a Éti­ca da Personalidade para tentar alterar atitudes e comportamentos, sem sequer nos aproximarmos do fenômeno da mudança, que ocorre es­pontaneamente quando vemos as coisas por uma nova óptica.
Torna-se óbvio então que a vontade de realizar mudanças relativa­mente pequenas combina com o foco nas atitudes e comportamentos. Mas, se desejamos empreender mudanças qualitativas significantes, pre­cisamos trabalhar com nossos paradigmas básicos.
Ou, nas palavras de Thoreau: "Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes". Um salto qualitativo somente pode ser realizado em nossas vidas quando deixa­mos de cortar as folhas da atitude e do comportamento e passamos a trabalhar nas raízes, nos paradigmas que determinam nossa conduta.

O texto foi extraído do Livro "Os 7 Hábitos de Pessoas Muito Eficientes", de Stephen Covey, 5ª Edição, Editora Best Seller.

Observação: O nome atual da obra é "Os 7 Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes". O Original é The Seven Habits of Highly Effective People. Na língua portuguesa, mesmo no jargão profissional (Administração, Recursos Humanos, Peopleware etc), effective não tem uma palavra unívoca para traduzi-la. Daí a diferença nos títulos, trata-se de um conceito. Já as palavras "eficiente" e "eficaz" precisariam se associar a uma terceira para completar o conceito.


Nenhum comentário:

Postar um comentário