sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Cenas de rua

Parada, sentadinha num murinho baixinho, estava aquela velhinha, bem quietinha. Velhinha não por causa da idade, embora já fosse bem madurinha... mas o seu aspecto de fragilidade era que dava a idéia de que era uma velhinha, que carecia de proteção.

Depois de um tempo, puxou um saco de papel e dele tirou um pão. Pelo jeito, duro, pois ela o mordiscava bem de levinho, assim, sem nada dentro.

Do outro lado da rua, vinha um homem, esbaforido, apressado, desviando-se de quem podia e trombando com os mais lerdos. Atravessou a rua, passou voando pela velhinha e foi-se. De repente, parou. Virou o tronco e ficou parado, olhando aquela senhora mordiscar seu pão. A pressa sumiu. Passou longo tempo olhando para ela. De repente, caminhou e direção a ela, trocaram rápidas palavras, ele a ajudou a levantar-se e entraram na lanchonete próxima.

Sentaram próximos à janela. A lanchonete era do tipo que servia os famosos PF, e logo chegou um. Para ela. Ele só observava. E ela comia, aos bocaditos, como fizera com o pão. Comia devagar, mas com gosto, e se deliciava com o refrigerante. E o homem só olhando.

Não se falaram. Ou quase. Palavras rápidas e raras. E ela acabou seu prato. Levantaram-se, ele pagou a conta e saíram. Ele quase não a deixou agradecer. Colocou alguma coisa na mão dela (dinheiro?), virou as costas e seguiu seu caminho. A pressa voltou, ele logo sumiu na multidão.

A velhinha nem parecia mais tão frágil. Agora a linha da boca se alterou, parecia um rascunho de sorriso. Pacientemente, pegou o pão que restou, embrulhou-o cuidadosamente e o guardou. Acho que é porque nunca se sabe quando o herói anônimo vai aparecer pra salvar o dia. Pois aquele homem salvou o dia desta senhora.

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