sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sérgio Cabral, criminalidade, aborto

Sérgio Cabral tocou num nervo exposto, para variar. Declarou que a fertilidade das mulheres das favelas cariocas é grande fornecedora do crime (tráfico). E defendeu o aborto para pobres, da forma como já existe para os remediados.

Ok. Cabral tocou num ponto, mas não esgotou o assunto. Assumir que este seja a origem de todos os males criminosos do Rio (e do Brasil) é reduzir a questão a um tamanho inaceitável. Há diversos fatores, e este é, sim, um deles. Mas não é o único.

Mas é um deles, sim. Como frisou Barbara Gancia em seu artigo de hoje na Folha de São Paulo, quais são as chances de jovens gerados "à revelia" e rejeitados por seus pais se tornarem criminosos? Com as companhias que se lhes oferece nas favelas, e a falta de perspectivas sociais, o tráfico é até uma possibilidade de vencer na vida, infelizmente. Assim, aos que não planejam engravidar, ou não planejaram, o estado deveria oferecer meios de evitar ou interromper a gestação. Isto aqui colocado sem conotação religiosa, mas pragmática.

O que dizer, então, do perfil dos usuários de drogas, destacadamente jovens de classe média/alta? Não se pode afirmar que sejam fruto d gravidez indesejada. Não se pode dizer que não tenham tido amparo familiar ou conforto. Mas é quem oxigena o tráfico. Sem esse consumo. seria menor o tráfico (talvez crescessem outras atividades criminosas, para compensar a perda de receita dos bandidos, mas esta é outra discussão). Mas aqui não se pode dizer que o aborto resolveria. Portanto, é preciso olhar o cenário como um todo, e não apenas achar que, legalizado o aborto, resolveríamos todos os problemas do Brasil.

Mas o aborto é uma medida controversa, muito controversa. Há os que são a favor, muito a favor, e os que são contra, muito contra. Dificilmente se encontra quem seja neutro em relação ao tema.

Normalmente, o que embasa a posição formada é a orientação religiosa. Num estado laico, como se declara o brasileiro, tal orientação não pode se refletir na lei. Motivo pelo qual o STF realizou recentemente um workshop de biológos falando sobre concepção e vida. O objetivo era dar aos ministros um embasamento científico para julgas as questões que envolvessem esses conceitos. Sem resultados práticos, ainda, mas uma bela iniciativa.

Os argumentos religiosos se limitam sempre pela realidade. Ao assumir para si um comportamento indicado por uma religião, a pessoa o faz sempre manifestando sua liberdade de escolha. A mesma que define se ela terá relações sexuais (exceção feita ao estupro), e a mesma que lhe possibilita escolher sexo seguro e métodos contraceptivos. Não escolhendo este caminho, ou seja, optando por não se proteger contra DST e concepção indesejada, submete-se às conseqüências e riscos inerentes. Em tendo escolhido não utilizar métodos contraceptivos, assumiu a possibilidade uma gravidez. Se lhe barra a religião a possibilidade de fazer aborto, sua liberdade de escolha (mais uma vez) é quem determina se fará de fato ou não. Pois não tem (mais) a religião o poder coercitivo de evitar seu ato. Quanto ao fato de tomar uma atitude condenada pela religião, terá momento para se justificar, segundo a maioria das crenças.

O que destaca Sérgio Cabral é que as pessoas de maior capacidade financeira é que está ao alcance delas realizar o aborto (independentemente de orientação religiosa). O mesmo não se dá com as pessoas de menor poder aquisitivo. Que se arriscam com agulhas de tricô, parteiras/abortadeiras e pseudo-clínicas (onde parteira/abortadeiras fazem o "procedimento" às vezes até com agulha de tricô). Ou não. Essas de menor poder aquisitivo deixam a criança nascer, para dá-las a outras pessoas, à vida bandida, ou simplesmente dar-lhes as costas.

O debate não se encerrará cedo, porque não se iniciou. Ao tema é comum aplicar uma sonora vaia, mas não uma produtiva discussão. É terreno pantanoso, do qual fogem os políticos e religiosos.

E, assim, com todos desviando o rosto do problema, vão ainda morrer muitas mulheres em decorrência de complicações pós-aborto. E ainda muitas crianças vão crescer, rejeitados ou simplesmente mimetizados com a criminalidade, contribuindo para nossas trágicas estatísticas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário