quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A Copa do Mundo é nossa!!!

O ufanismo do título está carregado de sarcasmo.

Quando John Kennedy lançou o desafio de ir à lua, ele mobilizou e fez mobilizar vários organismos e pessoas no sentido de viabilizar seu projeto. E, antes do prazo dado, o homem foi à lua e voltou, são e salvo, como predissera o repto.

O que Kennedy fez foi transformar em meta um sonho. Colocou data e hora, e em função disto estabeleceram o "como". E, sucesso. Os Estados Unidos já tinham um excelente nível educacional, e um excelente atendimento médico. Exceções à parte, o povo americano estava estabilizado. Assim, pôde sonhar com as nuvens e com a lua.

E o Brasil? Estima-se que serão necessários quase vinte bilhões de reais para viabilizar a copa (infra-estrutura e outras obras essenciais, além do aparato de praxe). Para ser usufruído por menos de um mês e depois incorporar-se à paisagem. Provocará um belo afluxo de turistas, isto é verdade. Em um mês, impostos de serviços prestados e produtos vendidos terá um belo valor, também verdade.

A pergunta do mal-humorado aqui é: esta deveria ser nossa prioridade?

No Nordeste, pessoas estão morrendo na fila dos hospitais sem atendimento médico. Lá o caso é mais grave que nas outras regiões, só por isto tem esse destaque. Nas demais regiões, o grave já se classifica como o "cotidiano". Nossas estradas continuam esburacadas, aumentando o valor dos fretes de transportes, refletindo-se nos preços finais de nossos produtos. Nossas escolas ainda nem segurança têm, sem mencionar o salário ultrajante dos professores. Os equipamentos do nosso aparato de segurança são dignos de sucata. Tudo isto por falta de dinheiro.

Mas a copa, ora, a copa é de futebol. Futebol é que emociona o brasileiro. O presidente do senado está envolvido em denúncias? Paz no Brasil. O Corínthians vai cair? Comoção! Protestos! Agressões!

O rolex de Luciano Huck foi roubado? Bem feito, o rico merece! A mãe do jogador (de futebol) foi seqüestrada? O Brasil inteiro pára para acompanhar e ajudar.

Lula, com sua verve natural (e sua diarréia verbal) deveriam engrandecer o Brasil. Há filas nos hospitais? Lance-se o desafio de, em sete anos (o tempo que falta para a "nossa" copa) acabar com essas filas. Há crianças sem escolas? Desafio: escola para todos (em sete anos). E por aí vai.

Mas nosso ufanismo não se comove com hospitais. Nem com educação. Comove-se com o espetáculo fugaz da Copa, com seus bilhões de reais que, sabemos, multiplicam-se como pães e peixes, aos doadores de campanha, digo, empreiteiras. Dos hospitais e escolas, obras pequenas, já não se pode atribuir o mesmo interesse.

Pobre Brasil. Mas nossa pobreza é intelectual. Principalmente intelectual.

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