sábado, 13 de outubro de 2007

É, as coisas mudam

Tínhamos uma turma. Que nasceu pequena, com quatro pessoas. Mas que logo foi crescendo, com outros aventureiros.

A desculpa? Pescar. Mas tinha uma época em que somente dois de nós levávamos material ("traia") de pesca; Os demais nem se davam o trabalho. Também, só o que eu levava era suficiente para que vários pescassem...

Com o passar do tempo, somente eu continuei levando a "traia". caprichosamente guardada numa mochila, cuidadosamente montada a cada pescaria. Descobri, depois de um tempo, que havia um rodízio dentre os demais, para evr quem iria ficar comigo no rio. Quem perdesse, claro.

Eram dias de churrasco, cerveja, e muita conversa jogada fora. Brincadeira várias, inclusive as mais bestas. Por exemplo, uma brincadeira de dar tapas na nuca que acabou num vidro de um carro quebrado. E um só comentário: - "puxa, imagina se tivesse me acertado".

Tinha um caiaque no rancho (era uma represa). Um belo dia, um de caiaque, outros de lancha, outros pescando num jirau no meio da represa, outro num avião (era chique, o danado).

Histórias mil. Como a do caiaque que virou. A da pedra, de toneladas, que "se mexeu" e jogou o incauto na água. A isca, que chamou a atenção de pescadores ao nosso redor, tantos eram os peixes que pescávamos, e que um de nós afirmou, simplesmente "- é a Folha de São Paulo". E, ato contínuo, puxou o anzol da água mostrando um pedaço de jornal como isca.

É, tempos idos. Era uma fuga às pressões do dia-a-dia, e só nós sabemos como eram grandes. Era a chance de nos escondermos da verdade, e montarmos nosso grande teatro do faz-de-conta. Nosso maior problema era a madeira para assar a carne. Ou descobrir quem é que iria limpar os peixes. Ou saber quem iria contar ao dono da casa que o seu scotch blue label tinha acabado...

Enfim, tempo em que algumas coisas muito, muito bobas viraram piadas. E que afloravam no dia-a-dia, na hora mais tensa, como escape. Como se estivéssemos no nosso recanto de pesca, brincando. Fugindo da insanidade, escondíamos-nos na insanidade.

Hoje, tenho contato com um dessa turma, que chegou a ter mais de vinte participantes. Um de nós se perdeu no Mato Grosso, ninguém sabe seu fim. Tememos pelo pior. Outros, distanciaram-se como há de ser nesta vida, de amizades fugazes e eternas.

Aquele com quem tenho contato amargurou-se com a vida. Não ri mais, a não ser aquela risada que trai a má vontade. Os demais, ora, os demais, a vida continua.

Mas de vez em quando pesco com minha turma, que me aturava pelas madrugadas afora, na beira do rio, com minhas piadas infames, que me dão tanta satisfação. E, nessas fugas, reencontro cada um desses amigos, rindo de piadas que só mesmo nós somos capazes de entender.

É, vamos pescar...

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