domingo, 12 de agosto de 2007

Pais

Há quase quinze anos, numa manhã, tentava driblar a ansiedade, máquina fotográfica à mão. Numa das salas ao lado, minha filha estava para vir à luz.

Logo que chegou, olhinhos ainda desacostumados à claridade, petrificou-me com sua simples presença. Foi um instante que mudou para sempre minha vida.

Mais que frágil, como protegê-la? A partir desse dia, suas dores eram as minhas dores, seus choros eram minha preocupação, seu futuro passou a ser minha profissão.

Pois que ser pai não é somente ter alguém a quem chamar de filho. É uma condição em que nos transformamos em gerentes de coisas inadminstráveis. É quando nos transportamos para o passado e passamos realmente e compreender nossos próprios pais. É uma viagem de passado e futuro, e nem sempre sabemos onde podemos chegar. Mas sabemos onde queremos.

Continua hoje aquela ansiedade, já ambientada ao dia-a-dia. O que estudar, como se portar, como ficar longe das drogas, como estar protegida. Como se fossem nossas, as preocupações nos dominam, talvez ainda mais que a eles, no seu terno alheamento das questões urgentes e adultas.

Participo, quando possível, o que é quase sempre, de seus sonhos, desejos, temores. Tento transmitir minha visão, que afinal nada mais é que somente minha visão, dos grandes dilemas da vida. Visão, confessemos, solenemente esnobada pela sabedoria dos que ainda são donos da vida.

Mas, de filha, promoveu-se. Agora é amiga, que faz questão de compartilhar histórias, indignações, dúvidas. E faz questão que eu assista filmes, veja histórias, conte passagens. Ou seja, exige, como se fosse necessário, minha presença na sua vida.

Se filha seria mesmo para sempre, já não se pode dizer o mesmo de amiga. Que, repito sempre , por algum motivo, mereci chamá-la assim. E acho que isto, sim, é que é ser pai. É poder ser amigo daquela que vem a ser a prioridade na minha vida.

Um comentário:

  1. Muito lindo o que vc escreveu...
    Pai e filha tem uma ligação muito forte. Talvez uma cumplicidade.
    Parabéns e continue a ser esse pai sempre presente.
    Se cuida,
    Lilian.

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