quarta-feira, 4 de julho de 2007

Controladores aéreos

Ontem o Jornal Nacional deu uma importante informação como se fosse um mero detalhe, sobre a crise aérea. Desde o acidente do avião da Gol, a crise a;i está. Uma das causas seria falha humana dos controladores de vôo envolvidos. Pois bem, em reação a essa acusação, os controladores passaram a trabalhar, em termos de quantidade de vôos controlados, no limite indicado pelas normas. Isto causou um grande impacto, pois havia muito mais vôos por controlador do que a segurança permitia (conforme a norma).

É bom repetir, para ficar bem claro: passaram a trabalhar de acordo com a norma. O que quer dizer que, antes do acidente, as normas de segurança não eram respeitadas, ao menos no que diz respeito à quantidade de vôos por controlador.
É uma constatação fácil de ser feita. Basta comparar quantidade de controladores, quantidade de vôos controlados e comparar com a norma. É simples, não?
Parece que não. Até agora, ao menos, não vi nenhuma análise nesse sentido. E o assunto me interessa, leio muito sobre ele. Mas ainda não encontrei essa vertente de análise.
Dizer, então, que a crise se restringe à irresponsabilidade dos controladores é, em si mesmo, uma grande irresponsabilidade. Se o "detalhe" apresentado na Globo for uma verdade, muda radicalmente o horizonte de culpas.

Sucateamentos
Os hospitais públicos estão sucateados. Prédios velhos, equipamentos quebrados, móveis em ruínas. Atendimentos do INSS estão nas mesmas condições. Exemplos há aos montes. Mas há outro ponto comum: a falta de mão-de-obra nesses locais. O sucateamento das instalações físicas é acompanhado de perto pela falta de preparação de pessoal. O que acontece é que os investimentos não são feitos, e sem eles não há "Plano B". O "Plano B" é não precisar de "Plano B".
E isto inclui contratação de novos funcionários. Não terá sido diferente na área do controle aéreo.

Desde quando?
Com certeza não é um problema que surgiu na era PT, embora tenha sido apresentado à sociedade nos anos Lula. Com certeza esse descaso vem desde Fernando Henrique, provavelmente antes até. É o resultado de anos de foco em cosmética, em ações eleitoreiras. É resultado do custo do marketing de eleição, que suga os recursos de outras áreas. É resultado de uma aposta econômica que enxergava qualquer desencaixe como gasto, mesmo que pudesse ser chamado de investimento.
É o resultado da falta de dinheiro do governo, que, infelizmente, teve dinheiro para as obras superfaturadas do Pan, para o mensalão, para o Aerolula.

Até quando?
Declarações infelizes não nos deixam muito animados com os cenários. Quando Marta aconselhou o povo a relaxar, deixou subentendido que solução não havia. Idem para a análise manteguiana. E idem para a declaração do presidente da Infraero, cuja paciência já estava no fim...
A solução realmente não é fácil, nem rápida. Assim como é resultado de anos de descaso, o caos aéreo só vai se encerrar com muito trabalho (preparação técnica de novas pessoas) ao longo de um tempo mínimo. É uma equação implacável: quantidade de vôos (permitidos pela norma) para uma quantidade de controladores. Atingi-la vai exigir tempo. E paciência. E dinheiro.

Mas...
Essas mesmas declarações mostram o quanto o governo tem tergiversado a respeito. Ninguém assume o erro, ninguém está errado. Só os controladores. Num governo em que "todo mundo faz" (Lula, sobre o caixa 2), e que "são uns aloprados"(Lula, sobre o dossiê na campanha presidencial), o hábito é passar por cima de normas para fazer o que se quer fazer. Os controladores, então, tinham mesmo de desrespeitar a norma para encobrir uma ineficiência do governo em manter infraestrutura adequada.
Quando o governo parar de repassar culpas, e encarar os problemas, vai ter condições de enfrentá-los. Se não enfrentá-los, entretanto, é pouco, muito pouco provável que eles se resolvam.

Não justifica...
Os controladores já deram seu recado, e tenho de apoiar sua decisão de agir segundo a norma. Mas, ao adotar comportamentos, deliberadamente, que complicam ainda mais a situação dos passageiros, perdem toda a razão. Colocam grandes obstáculos na vida de meio mundo, e para que?

Mas convenhamos
O calvário dos controladores precisa ser mostrado. Não aquele, com viés sensacionalista que temos visto nas TVs. Aqueles depoimentos sem rosto e voz mascarada(para evitar reconhecimento) são pobres em termos de informação. Mostram a face emocional, e precisamos de racionalidade para analisar a situação.
E a informação, tratada como detalhe pelos meios de comunicação, é que a norma finalmente está sendo seguida. Em qualquer outro lugar do mundo, seria algo a se comemorar. No Brasil, é um problema.

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