sábado, 9 de junho de 2007

Vou estar escrevendo...

Carlos Drummond de Andrade, no conto "Em Ida, em Ada" (Boca de Luar, Ed. Record), revoltava-se contra uma nova mania lingüística: "vou dar uma passada". "Vou dar uma lida". E o conto, delicioso, dá uma passeada por esse maneirismo.

Hoje, a moda-maneirismo é outra. É o gerundismo, de que tanto tratam diversos e muitos textos na mídia. É "dar uma ligada" para uma operadora de telefonia, por exemplo, e escutar:
- Vou estar mandando...
- Vou estar verificando...
- Vou estar solicitando...
- O senhor pode estar passando...
- Você pode estar retornando...

Bem, o gerundismo tem origens definidas (na forma de comunicação da língua inglesa ele é bem comum), mas já ocupa um lugar ao lado de expressões como "a nivel de". Esta, utilizada como moda nos anos 90, hoje é totalmente abominada, e seu uso voltou ao lugar a que pertence.

Mas a comunicação é livre, e independe das regras da língua culta. Muitas vezes, chega mesmo a alterá-la, ou, no mínimo, apresenta-se como uma alternativa a ela.

A grande decepção de Drummond não teve eco na utilizadação daquela forma. Hoje, é aceita naturalmente, e ninguém mesmo a destaca como erro, maneirismo, etc. O gerundismo, infelizmente para os comunicólogos, está no mesmo caminho.

Defendo que cada um decida sua forma de comunicação. É da personalidade de cada, e cada um deve escolher. Mas defendo também uma forma de comunicação em que a mensagem chegue limpa, sem elementos de distração. Quando se usa o gerundismo, algumas vezes causa-se dor nos ouvidos do interlocutor. E isto distrai. A mensagem pode ser, então, mascarada pela forma de enviá-la. E isto não ajuda o processo de comunicação.

Então, eu não uso o gerundismo. Que os que gostem, usem. Sem preconceitos.

Mas eu vou estar pensando sobre o assunto, para dar uma decidida.

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