quinta-feira, 17 de maio de 2007

Conversas...

Dia destes, fui buscar minha filha na escola. Fazia já alguns dias que não nos encontrávamos.

No carro, conversamos bastante. Paramos para um capuccino, e continuamos conversando. Em casa, fizemos algumas pesquisas, estudamos um pouco, e sentamos no sofá. E conversamos...

Nossas conversas são bem abrangentes. Conversamos sobre tudo, sempre ambos com muito interesse pelo que o outro tem a dizer. E, não bastasse, às vezes continuamos nossas conversas pelo MSN ou pelo telefone.

Quando ela era pequena, sempre a estimulei a argumentar em favor das suas coisas. Ou seja, quando ela queria alguma coisa e eu negava permissão, ela deveria sempre argumentar. Eu dizia: "convença-me". E ela tentava...

No início, ainda sem repertório, ela insistia no pedido. Com o tempo, foi ganhando argumentos. E, inúmeras vezes, um argumento inteligente ou divertido me derrubavam, e ela conseguia o que queria. Claro que não é fácil ter uma criança insistindo, e insistindo... Mas o lado bom é que ela fez um bom aprendizado do processo. Hoje, seus argumentos são refinados, requintados. Inteligentes além do razoável, são argumentos sedutores, com a sábia colocação destes onde cabíveis.

Mas isto é um truque meu. Cada vez que ela precisava "negociar" comigo, imagino que houvesse uma antecipação. Ela, provavelmente, pesava meus argumentos, e já preparava os seus contra-argumentos. Isto, é claro, oferece uma antecipação formidável para negociações. E, ao mesmo tempo, colocando-me na outra ponta, na sua discussão imaginária, pode antecipar eventuais furos de argumentação. Enfim, mostrei, ou tentei mostrar a ela, o meu jeito de me preparar para ocasiões semelhantes de minha vida. E parece que a "lição" tem dado resultado.

Sempre conversamos muito. Por exemplo, quanto a palavrões. Minha decisão foi a de não falar palavrões, ela sabe. mas eu sempre digo a ela que, um dia, ela vai decidir se ela quer falá-los ou não. Porque hoje é uma determinação minha. Mas ela vai já, se é que ainda não, atingir a condição de escolher se está na hora ou não.

Tento fazer com ela veja minha "proteção" como apenas necessária. Não quero que ela deixe de fazer as coisas por minha causa. Os palavrões, por exemplo. Tanta gente me diz que é um escape. Ok, se ela achar assim, que seja. Mas que sua vida seja pautada pelas direções, não pelos meus caminhos. Gostaria que ela visse minhas escolhas, e, mais importante, o porquê dessas escolhas. Que ela veja meu mapa axiológico, meu mapa de valores. E ter a certeza de que estes dirigem minhas ações.

Acho que o mapa axiológico dela pode ser diferente. Deve, talvez. Mas, que seja fruto de suas decisões, de suas esolhas. De suas experiências, de suas expectativas. Eu não seria feliz se me repetisse nela. Serei feliz, isto sim, se ela se mostrar capaz de tomar suas próprias decisões, de cometer seus próprios erros. A mim, restará sempre o fato de que a criei com amor. Um amor desapaixonado (no sentido de regido pela razão), mas cheio de paixão por ela.

Por falar nisto, sempre deixei claro a ela; meu amor é incondicional. Tenha feito ela uma grande travessura, tenha feito uma grande ação, eu a amo da mesma forma. Às vezes zango-me, como acontece aos pais. Mas esse zangar não afeta a quantidade e qualidade do amor. Brigamos, às vezes, abraçados. Por que quero a ela o bem maior, por mais que brigue com ela. E acho que ela tem certeza disto.

Quando, lá na frente em nossos anos, ela se lembrar de mim. talvez já partido, espero que a imagem que lhe venha, além deste velho pai, seja a que sempre tentei passar. Tentei ser um pai que educou por valores. E, muito mais importante, que tentou educar pelo exemplo. Tento ser um exemplo bom, um cujo discurso é adequado às ações. Esta é a maior liderança, a exercida pelo exemplo.

Acho que alguma coisa estou fazendo corretamente, pela nossa interação. Sou dela um amigo, antes de ser pai. E isto me dá muito, muito orgulho.

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