sábado, 14 de abril de 2007

O que tem a ver???

Um amigo que leu este humilde blog (ah, então foi ele!!!) me ligou ligou perguntado o que tem a ver a experiência de Milgram com Lula, controladores, etc.
Faz sentido.

Fiz, em vários outros posts, menções sobre o assunto e vou tentar resumir.

No Julgamento de Nuremberg, os oficiais alemães apresentavam um argumento "padrão" para seu atroz comportamento: estavam seguindo ordens. Se estavam seguindo ordens, claro, alguém estava liderando. Sob essa liderança é que se escondiam as responsabilidades daqueles que, concretamente, perpetravam aqueles atos.

A experiência de Milgram nos apresenta um faceta interessante. Embora não tão atroz, pessoas adotavam comportamento que causava sofrimento a outras, sob a mesma égide da "obediência", neste caso a alguém que assumia a responsabilidade pelas conseqüências. Uma farsa na montagem, a experiência mostrou um lado terrível do comportamento humano: o lado Pilatos de cada um.

Pois bem. No julgamento de Collor, apareceram dois personagens que desmascararam os atos palacianos. Um deles, o motorista Eriberto França. Que contou toda a verdade sobre a entrega de dinheiro a personalidades. A outra foi a Sandra Fernandes de Oliveira, lembra-se?, secretária daquele escritório de advocacia que montou o esquema da Operação Uruguai (aquela desculpa esfarrapada de um empréstimo que estaria financiando a nababesca vida do presidente).
Em ambos os casos, esses personagens saíram de sua zona de conforto e denunciaram alguma coisa que lhes causava engulhos creio eu.
A história não falou muito mais sobre ambos. Pelo que sei, não enriqueceram, não foram ao Jô, não saíram na Caras. Mas contrariaram o instinto básico de calar perante a autoridade.

É aqui que junto as coisas. Vivi, numa entidade estatal, experiências que mostravam ou uma alegre adesão a movimentos "não-convencionais", ou um conveniente (muitas vezes necessário) olhar para o outro lado.
Ambos, acredito eu, baseados no fato de que "quero participar da festa" e/ou "não adianta lutar contra essa cultura". Cultura, aqui, eufemismo para algo bem mais feio...

Milgram nos mostra que as pessoas são naturalmente assim. É o comportamento padrão. E que, para mudar, temos de tomar uma ação consciente e voluntária de transformar esse estado das coisas.

Acrescento mais: é preciso um conjunto axiológico, um credo que nos mostre os valores em que acreditamos, e que norteie nossas ações. Algo tão entranhado em nossa mente e coração que, na iminência de comportamento perturbador desses valores, paremos e o avaliemos. E, se nossa ética impera, fazemos o que acreditamos, não aquilo que nos é ordenado.

Para resumir: quem mais sabia de mensalão? Dos problemas dos aeroportos? Da história real do Gol, vôo 1907, que deflagrou toda essa crise na aviação? Quem é que sabe como foram negociados os votos da reeleição? Enfim, cadê os eribertos e sandras para contarem o que sabe? Cadê o Francenildo, o caseiro do caso Palocci e a quebra do sigilo bancário?

Acho que estão todos escondidos sob a tese de Milgram. Não os culpo, porque acho que no Brasil a testemunha é mais maltratada que o acusado. Nenhum deveria ser maltratado, mas o caseiro mostra que a corda estoura sempre do lado do "andar de baixo", como diria o Elio Gaspari.

É isto, meu amigo (aquele me me ligou). Estamos todos escondidos sob a autoridade. Deveríamos estar mesmo, mas sob a autoridade de nossos valores.

Enquanto isto, tome Milgram...

A propósito, grato a esse amigo pela argüição. Disparo textos aqui a esmo, achando que todo mundo tem tempo de ler historietas e opiniões de um qualquer.

Mas a verdade é que estou me divertindo!

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