quinta-feira, 12 de abril de 2007

Garfield para deputado federal

Garfield, aquele gato criado por Jim Davis, amante de lasanha e inimigo mortal das segundas-feiras, está à procura de doações para sua campanha a deputado federal. A decisão foi tomada ao ler os jornais do Brasil que anunciavam que os deputados não vão mais realizar votações às segundas. - "É tudo que sempre sonhei", disse o obeso e preguiçoso gato.

É verdade, os deputados realmente decidiram não votar nada nesse dia da semana. É compreensível, já que eles precisavam de um dia para poder compartilhar as dores do povo brasileiro. Imagina-se, então, encontrá-los nesses dias na fila do SUS, dando apoio a vítimas de assaltos, presenciando os problemas nas filas do INSS...

Não se trata de desrespeito ao povo. Trata-se de uma descarada assunção de uma verdade maldita. Segunda-feira é o dia em que os representantes do povo vão para Brasília. Chegam, vão para seus hotéis ou apartamentos funcionais, almoçam com assessores...

É injusto dizer que o dia merece ser descontado dos seus "salários" (entre aspas porque salário é o mínimo). Imagina-se que a medida acelerará a resolução dos problemas do Brasil, por isto tão importante para nós, brasileiros.

O trabalhador, agora, tem mais um motivo para pleitear o mesmo aos seus empregadores. É o dia em que se sentará com o seu representante, apresentará a ele suas dificuldades e anseios, discutirá as prioridades nacionais, fará considerações filosóficas sobre ética...
Afinal, domingo é um dia terrivelmente estressante, provando que o calendário está inadequado. A macarronada na hora do almoço, o futebol à tarde, os passeios com a família, tudo isto cansa o brasileiro. Nada mais justo que descansar, na segunda, do cansativo dia de descanso que foi o domingo. E o patrão, outro brasileiro, entenderá perfeitamente, e nem descontará o dia daquele sofrido trabalhador.

Na vida real, o deputado já garantiu seu futuro. Num belo dia de outubro, em frente a um equipamento eletrônico de reputação duvidosa, milhões de brasileiros disseram que ele seria um representante de seus anseios e necessidades. Acreditava que pelos quatro anos seguintes a luta desse representante fosse em função disto. Em vez, é a favor de sua próxima eleição, e o ciclo se reinicia.

Não é difícil imaginar que a próxima ação, coerente com esta, seja abolir votações na sexta-feira. Além de todos os problemas que o deputado enfrenta, ainda há os dos aeroportos. Estressante, o ideal é antecipar a volta.
Num efeito cascata, mas ainda coerente, a terça-feira é a próxima. E a quinta. Então, fica combinado: votações, somente às quartas.
"Pera" aí: ir a Brasília para votar somente um dia? É melhor nem ir. O executivo pode fazer o que for preciso através de medidas provisórias, lembra-se? Assim, o deputado fica livre para atender "à sua base" todos os dias da semana...

A democracia "do povo, pelo povo, para o povo" nunca foi uma realidade. Nem sequer está perto disto. A escolha dos representantes pode ser boa (isto mesmo, somente boa), mas o modo do exercício desse poder delegado não. Aliás, nem pode ser, porque não existe. Defensores da democracia não aceitam a idéia de discuti-la, numa posiçao binária, que considera somente democracia e autoritarismo. mas há que aperfeiçoá-la.

O novo código civil "tramitou" durante quase trinta anos. Tramitou aqui é um eufemismo para dizer que ficou engavetada. Com trinta anos de defasagem, nasceu anacrônico, se é que é possível isto.

Esta é a nossa democracia.

O "povo" beneficiado é sempre o mesmo, o estamento perene do poder. E o povo excluído só o é por omissão.

Mas o BBB7 foi bem acompanhado e discutido nas ruas. Abrandamento das regras de nepotismo, auto-concesssão de aumentos salariais, e outras "coisinhas" não chegam a empolgar como o Alemão.

Mas o congresso não é a cara do Brasil. Este acorda cedo, chacoalha de madrugada em ônibus lotados, precisa trabalhar todos os dias da semana. Tem desconto das faltas, e tem metas a cumprir. Dá graças quando o trabalho é muito, porque a alternativa é trabalho nenhum. E vendendo o almoço para comprar o jantar, mas ainda não pensou que a solução dos seus problemas é se eleger para algum cargo. Qualquer um. Todos são iguais...

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