terça-feira, 20 de março de 2007

Fraude em Concurso

Está os jornais da semana passada uma notícia que envolve fraude em concurso público.
http://oglobo.globo.com/rio/mat/2007/03/14/294936958.asp.

Vivi uma situação semelhante, num banco estatal.

Devido à natureza de meu cargo, viajava muito pelo país. Numa dessas viagens, fui conhecer a gráfica do banco, na cidade do Rio de Janeiro.
O chefe das dependências nos levou a um tour, mostrando equipamentos e instalações. Num determinado ponto, ele, visivelmente orgulhoso, disse que estávamos na área onde seriam impressas as provas de um concurso que o banco faria. Contou como era o esquema de segurança e que seu afastamento se daria porque uma de suas filhas, ou filhos, participaria do concurso.
Declarou-se impedido, passou a responsabilidade ao seu "lugar-tenente" e, depois de um determinado dia, não entraria mais na gráfica.
E, brincando, contou que escaparia de ter de acordar de madrugada, acompanhar o despacho das provas aos locais da aplicação, e mais uma infindável sucessão de medidas visando evitar a fraude.

Meses depois, em Brasília, ao chegar ao banco, encontramos um material xerocado, denunciando fraude no concurso. O material, feito por funcionários, aparentemente fora deixado na noite anterior.
E dizia que os indícios eram fortes, e que a direção do banco havia sido alertada. Mas que não se movera. Revoltados, os funcionários então apelaram para esse artifício.
Dentre os primeiros colocados, estavam diversas pessoas relacionadas a pelo menos dois dos chefes do setor responsável pela elaboração da prova. Filhos, sobrinhos, namorados e namoradas estavam na relação, que, depois, cresceu.
Culpa é coisa de apuração da justiça, mas ambos se aposentarem, para mim, numa confissão aberta. A partir daí, a auditoria do banco entrou em ação, apurando o caso.

Primeiro, ao saber da notícia, lembrei-me daquele chefe, lá do Rio de Janeiro, que jogou limpo, afastou-se e fez o certo. Imaginei o que ele estava sentindo. Depois, senti, eu mesmo, um gosto terrível na boca, pois uma das coisas mais sagradas para nós era lisura dos concursos do banco. Com desta mancha, quem poderia afirmar que outras certezas de lisura que tínhamos não era também equivocada?

Era época do Collor. O Pedro Collor recém tinha feito as denúncias. Brasília estava em polvorosa. E o banco em meio a um tiroteio infernal. O episódio teve um grande efeito em mim, pois desmitificou aquela entidade. Se eu já estava me decepcionando com várias nuanças do poder, esta me derrubou de vez.

Aquele concurso era para que servidores, basicamente, atendessem ao público do banco. Sem grandes prejuízos para o público em geral. Mas este de que tratam as manchetes recentes dos jornais era um concurso para juízes. Aqueles que, frente ao caso concreto, decidirão a sorte de partes numa desavença. Iniciando a magistratura com uma fraude, que confiança poderemos ter em suas decisões? Que justiça esperar das sentenças? Seria cabível achar que a outra parte ganhou por meio de alguma fraude?
Esperemos que o concurso seja anulado. E que medidas sejam tomadas para evitar novas fraudes.
Ah, claro que nem podemos comparar o salário dos bancários com o dos juízes. Nem a responsabilidade.

Diria o Casoy: é uma vergonha!

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