terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Tributo à minha filha

No avião, entra um casal com uma menininha de, no máximo, uns 10 meses. Achei que a viagem fosse ser penosa para ela, mas não foi assim. Ela se divertiu, no seu mundo alheio ao vôo.
Lembrei-me de minha própria filha, e de vários momentos que tivemos.

Primeiro, as cólicas. Indefesa, chorando de dor, que saída tem o pai? Eu a deitava em minha barriga, estando eu deitado também, e fazia massagens nas suas costas, até a dor ceder e ela adormecer. Nessa altura, já eu meio dormindo, meio massageando... Até que, madrugada a meio, a punha no berço.


Depois, já maiorzinha, divertíamos-nos quando eu literalmente a jogava para cima, e a apanhava na volta, deliciado com seu riso quase convulsivo. E, diversão certa, gritava ela:

-- Mais! Mais!


E cada vez mais, crescia. E com o tamanho veio a independência, cada vez maior. E, cada vez mais, ela precisava menos de mim.


Outras felicidades apareceram. Gosta de ler, e gosta de conversar sobre o que leu. Compartilha as coisas toscas e as interessantes. Compartilha o inesperado, e o óbvio. E, crítica, não deixa passar nada. Sentada à frente do seu micro, é ela quem ilumina a casa


Acontece que eu gostava daqueles tempos idos. Gostava de sua doce necessidade de minha massagem. Gostava de sua inebriante risada, e seu cansativo pedido por mais. E, agora, nova fase, eu gosto, também. Gosto de sua ânsia por conversa. Gosta da necessidade que ela tem de analisar, ser crítica, gosto de seu perfeccionismo, que só me faz me lembrar do meu próprio.


O bebê cresceu, hoje é uma adolescente de 14 anos. Repudio o termo “aborrecente”, por pejorativo e generalizante. E repudio ainda mais em relação a minha filha, que pulou essa fase.


Fui muito criticado quando ela ainda era aquele bebê pequenino. Diziam que eu falava com ela e a tratava como se fosse adulta. Acho que é verdade. Talvez eu tenha, inadvertidamente, subtraído uma fase natural do seu desenvolvimento. Mas parece que ela não está sentindo falta. Porque vejo como ela se diverte, com assuntos e temas que deveriam ser de adultos, mas que são tratados com a saudável sem-cerimônia dos adolescentes. E se diverte com descobertas inesperadas que me deixam embasbacado e interessado. E se diverte, sendo assim diferente de sua linha de tempo.

O bebê hoje é uma grande amiga, e não é por falta de opções (dela). Parece que eu, de alguma forma, mereci sua amizade.


Hoje, suas cólicas são de outra natureza. Já não precisa mais de mim...

Sinto saudades dela até mesmo quando estou com ela. Mas, permita-me, minha filha, sentir saudade também de outros tempos seus. Infelizmente eles não voltarão mais. Felizmente, você terá muitos outros momentos, e espero estar ao seu lado para compartilhá-los com você.

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