sábado, 17 de fevereiro de 2007

Obediência e Consciência

Reproduzo abaixo um trecho do livro “Eu estou Ok Você está Ok”, do Dr. Thomas A. Harris, da década de 60.
Tive contato com a experiência num curso do qual participei, e confesso ter ficado impressionado a ponto de me lembrar com freqüência do tema.
O contexto era outro, uma formação profissional, mas cabe bem em nosso cotidiano, especialmente nas nossas omissões de julgamento.
As aplicações são infindáveis, e reproduzo o texto para ter matéria comum para outras experiências reais que quero narrar.

Primeiro, o texto. Acho que ele é tão surpreendente, que volto a ele somente daqui a alguns dias, para dar tempo de digestão.

A ele:

“... o trecho seguinte é retirado inteiramente do artigo de Crawshaw, e relata uma pesquisa efetuada por Stanley Milgram na Universidade de Yale, e que fornece dados que ajudam a responder a essa pergunta:

A pesquisa de Stanley Milgram em Yale começa a pôr um alicerce científico sob as deduções de Cook. Milgram levou a cabo uma série de experiências psicológicas a respeito da obediência. Primeiro, escolheu uma amostra representativa (de vinte e cinco a cinqüenta anos de idade) da população masculina de Bridgeport, incluindo desde operários até profissionais liberais. A experiência visava determinar que grau de punição uma pessoa seria capaz de infligir noutra quando assim lhe ordenassem, mas foi apresentada falsamente como um estudo científico feito sobre técnicas de aprendizagem por um firma chamada "Bridgeport Research Associates". As pessoas que seriam objeto da experiência foram selecionadas ao acaso e receberam quatro dólares como uma compensação pelo tempo gasto.
Um dos pesquisadores foi amarrado a uma "cadeira elétrica" depois que o objeto da experiência (o professor) sofrera um choque de 45 volts para se convencer da autenticidade do aparelho. Depois, de uma sala ao lado, a "cobaia" (professor) passou a comandar o sistema de choques elétricos cada vez mais forte para cada resposta errada dada pelo pesquisador. Este, na verdade, não recebia qualquer choque, mas suas respostas eram murmúrios, exclamações, resmungos, súplicas e gritos gravados numa fita padronizada, e correspondiam à intensidade crescente da voltagem. Como as respostas eram arrumadas a priori pelo experimentador , o único fator limitativo que poderia impedir o professor de produzir a descarga máxima do aparelho seria sua compaixão pela dor sentida por um ser humano. O conflito para o professor (Mr. Everyman) era: obediência ao sistema da autoridade versus sua convicção de que não devia ferir uma outra pessoa.
Qual foi a percentagem dos assim chamados professores que chegaram a dar o choque de intensidade máxima? Antes que o leitor tente adivinhar, é bom que ouça a voz de Mr. Everyman ao controle do aparelho:
Carga de 150 volts: "Quer que eu continue?" (Tom de comando.) 165 volts: "Aquele sujeito está gritando lá dentro. Pode ser que ele sofra do coração. Quer que eu continue?" (Comando.) 180 volts: "Ele não pode agüentar mais. Não vou matar aquele homem lá dentro! Está ouvindo ele gritando? Ele está gritando. Ele não pode agüentar mais. E se alguma coisa lhe acontecer? Sabe o que quero dizer? Recuso-me a aceitar a responsabilidade.' (O experimentador aceita a responsabilidade.) "Está bem." 195 volts, 210, 225, 240 e assim por diante.
O objeto da experiência (o professor) invariavelmente obedeceu ao experimentador. Qual foi a percentagem dos "professores" (quase mil) que seguiram todo o caminho? Faça uma estimativa antes de continuar lendo.
Um grupo de quarenta psiquiatras que estudou o projeto predisse um décimo de um por cento. Na experiência, sessenta e dois por cento obedeceram totalmente às ordens do experimentador. Qual tinha sido o seu palpite?
Milgram conclui: "Com assustadora regularidade, boas pessoas cedem às exigências da autoridade e executam ações perversas e duras. Homens que na vida comum são responsáveis e decentes foram seduzidos pelas armadilhas da autoridade, pelo controle das suas percepções e pela aceitação não-crítica à definição dada pelo experimentado r dos atos que tinham que executar. Os resultados, como foram vistos e sentidos no laboratório, são perturbadores. Eles levantam a possibilidade de que não se pode confiar na natureza humana, ou, mais especificamente, no tipo de caráter produzido pela sociedade democrática americana para impedir seus cidadãos de serem brutais e de tratarem de modo desumano outras pessoas quando dirigidos por uma autoridade malévola. "

Minha edição do livro: 3 Edição, da Editora Record.

Sobre a experiência em si, você pode ler mais neste link, escolhido por ser bem resumido, sem perda de qualidade, embora em inglês: http://www.new-life.net/milgram.htm.

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