quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Motorista filósofo

Pego um táxi em Recife, e o motorista logo puxa conversa.
Falo a ele sobre meu espanto com o enorme movimento de carros em frente ao hotel onde estou. E ele responde, bem humorado:
-- Ninguém mais quer trabalhar, não. Com a ajuda do governo, agora o pessoal só quer praia.

Em primeiro lugar, acho o nordestino o povo mais afável e amável do Brasil. Nunca tinha me passado pela cabeça algo tão
rigoroso como o julgamento que este motorista fez de seus conterrâneos. Em segundo lugar, pela nossa conversa, ele é um dos fâs de Lula. Disse que ninguém nunca quis saber do nordeste, mas o Lula, conterrâneo, se preocupava e fazia muito pelo nordeste. Não é, portanto, nenhuma manifestação contra os nordestinos ou contra o governo Lula. É só uma observação que me fez um motorista de táxi.

Isto aconteceu no sábado (24/2). De volta a Campinas, vejo a manchete da Folha de São Paulo de domingo (25/2):
- "Benefícios sociais afastam trabalhador de emprego formal". Logo abaixo, o subtítulo: "Fazendas do NE não conseguem encontrar quem aceite trabalhar com carteira assinada por medo de perder Bolsa Família".
É, o motorista tinha razão. Tristemente.

Li um trabalho certa vez que fazia um estudo de produtividade em empresas, e comparava os resultados em função dos benefícios oferecidos (assistência médica, plano de saúde, creche,etc). A surpresa do estudo fica por conta da constatação de que as piores produtividades se encontravam nas empresas que mais ofereciam benefícios. Já aquelas onde esses eram raros ou inexistente, a produtividade era altíssima. Coincidência? Não parece.

Os trabalhadores do Brasil estão passando por tempos difíceis. E isto já há um bom tempo. Tempos em que encontrar emprego é, sim, um problema. Mas, pior, é estar ou ficar sem condições de sustentar a família. Por isto, acho que o receio maior dessas pessoas é que, por uma instabilidade de mercado, o emprego oferecido lhes fuja. E daí? É a volta da necessidade, dos tempos difíceis. E, com as regras desses benefícios o governo, eles não mais os receberiam. Quem pode condená-los?


O governo Lula está fazendo um bem. Deve aprimorar esse bem. Por enquanto, está dando o peixe, como deveria mesmo fazer. Está na hora de ensinar a pescar. Mas talvez ensinar a pescar não garanta nem popularidade nem votos. Pena.

Nas palavras do motorista:

- O Nordestino era um forte. Agora é um fraco, que só quer saber de mamar no governo.
Desculpe, meu amigo, acho que não é verdade É puro instinto de sobrevivência.

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