sábado, 17 de fevereiro de 2007

Morte no Amazonas

Foi numa viagem à Região Amazônica. Desci de barco pelo Rio Amazonas, de Manaus até uma cidade já no estado do Pará. Daí, mais um bom tempo de lancha até a cidade em que iria ficar. Por si só, a viagem já vale uma vida. A mais bela paisagem que já vi. O próprio Rio Amazonas, a Serra do Cachimbo, árvores carregadas de araras, o boto cor-de-rosa... Mas o cenário fica pra próxima.

Quando cheguei à cidade, após a natural corrida dos locais para ver o “estranho”, claro que fiz amizade com vários cidadãos, todos ansiosos por mostrar as belezas locais a quem, como eu, estava deslumbrado.

Beleza, tinha em profusão. Conforto, quase nenhum. Pelo menos daqueles a que estamos acostumados. Banheiro, era a “casinha”. Chuveiro, só se alguém jogasse água do rio para cima. A hora do banho era uma pintura, todos de sunga/biquini/maiô no rio, com seus sabonetes e shampoos, num banho comunitário.

Energia elétrica ainda era um luxo dos grandes. Era gerada por motor, movido a um tal de combustol, uma mistura de diesel com alguma coisa, que, claro, custava dinheiro. E que, por isto mesmo, tinha uma restrição: luz elétrica somente uma hora por dia, no início da noite, para ser bem “precisada” e bem aproveitada.

Depois do jantar, uma música como se fosse de praça tocava na cidade inteira, e sua fonte, descobri, era uma das casas no centro, onde um DJ instalara um alto-falante (literalmente) num poste, e tocava as mais pedidas da cidade, e de vez em quando dava umas notícias de interesse geral.
E foi aqui que presenciei uma cenas das mais brasileiras. A uma determinada hora, o DJ solicitou a quem pudesse uma ajuda, em dinheiro, para que fosse comprado mais combustol, de forma que se pudesse realizar o velório de uma pessoa que falecera naquele dia.
Curioso, fui atrás de informações sobre o falecimento. O falecido era um senhor, de meia idade, e não se sabia qual era a causa da morte. Estava se sentindo mal desde a noite anterior e não resistiu. Ninguém sabia o que tivera, e parecia que não interessava muito.
Um dia inteiro, passando mal, com fortes dores de cabeça! Fico pensando em nossas facilidades, nas opções de hospitais, privados ou públicos, poucos, ou muitos, mas sem dúvida presentes. Lá, na margem de baixo do Rio Amazonas, não tinham opção nenhuma.
Aí, fui tentar ajudar, respondendo ao chamado de nosso DJ. Fui até a “emissora” e perguntei quanto poderia dar para ajudar. Humilde, disse que o quanto fosse possível, e explicou que o pedido era somente para dar um conforto à família, que velava o corpo naquele instante. Também eu humilde, no sentido de nem ter muito dinheiro comigo, peguei uma nota de R$ 10,00 e ofereci a ele. Para minha surpresa, esse dinheiro era mais do que suficiente para iluminar o velório durante toda a noite. E o DJ, para minha maior surpresa, não tinha nem palavras para agradecer o gesto, tão desenxavido de minha parte.

Claro que a família apreciou o gesto. Mas foi uma noite memorável, por conta de dois fatores. Um: o meu amigo DJ, querendo a todo custo demonstrar sua gratidão, depois de cada música, agradecia pelo alto-falante a colaboração que dei para o velório. E, dois: como a cidade só tinha energia elétrica uma hora por noite, não havia necessidade da instalação de interruptores nas casas. As lâmpadas se acendiam e apagavam junto com o liga-desliga do gerador. Na casa em que eu estava, a lâmpada ficava, inclusive,num lugar muito alto. Resultado: passei a noite literalmente em claro, já que não havia meios de apagar a luz.

No dia seguinte, não consegui esconder meu assombro no enterro. Saindo da palafita de onde morava, o corpo foi enterrado embrulhado em um lençol, simplesmente. Uma vala ao lado de diversas outras, uma cruz caprichada, encerrou-se a história daquele homem.

Vi muita coisa nessa viagem. Mas essa dor alheia doeu também em mim. Olhando um pouco para minha vida, aqui no Sul Maravilha (como dizia o Henfil) vi que nossa vida é boa. Assim como a morte. E, se a morte lá de cima, para meus padrões, foi para lá de comovente, a vida lá é celebrada e vivida como merece. Por que lá é só isto mesmo que se tem: a vida.

Obs.: Para as novas gerações: Henfil, o Henrique de Souza Filho, foi um cartunista/escritor, criador da Graúna e do Fradim, dentre outros, numa fase criativa dos artistas do Brasil, mesmo que sob a ditadura militar. Ou por causa disto, não sei. Hemofílico, morreu de AIDS contraída numa das transfusões a que se submeteu em decorrência da hemofilia. Vale a pena ler seu livro Henfil na China, onde narrou cenas da China com seu talento enorme. Os mais velhos se lembrarão também do Betinho, irmão do Henfil, padecia do mesmo mal e faleceu da mesma doença, contraída da mesma forma. A Graúna e o Fradim, ambientados no Nordeste, eram um grito de socorro, muito bem humorado, que vinha em direção ao Sul Maravilha.
Mais sobre o Henfil? clique aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Henfil

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