terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Força de vontade

Conversando com um amigo, ele fez referência a uma caraterística qualquer minha, dizendo que ela o irritava profundamente. Disse a ele que, por mais que o irritasse, não via porque mudar, já que eu preferira agir daquela forma. Ao que ele replicou que este é daquele tipo de coisas que nós nunca conseguirmos mudar, é impossível.

Lembrei-me de Steven Covey, e seu Livro "Os sete hábitos de pessoas muito eficientes" (ou Eficazes, a depender a edição. No original é effective, mas a tradução não corresponde à idéia do autor). No livro, uma obra-prima dos livros de auto-ajuda (mas que não é, segundo o autor, um livro de auto-ajuda), o autor fala como embasamento aos sete hábitos, de algumas das facetas da personalidade e caráter. Mas diz, como idéia principal, que entre uma ação e uma reação (nossa resposta ao estímulo), há um tempo, necessariamente. Segundo, milésimos de segundo, mas existe um tempo. E que, nesse interstício, podemos escolher nossa reação. E que podemos, se quisermos, escolher uma reação produtiva, ou, ao menos, não destrutiva. Cita Eleanor Roosevelt como exemplo, com sua frase "as pessoas só podem te ferir com teu consentimento", para expressar justamente a idéia de que nós aceitamos ou não a provocação.
Nesta linha de raciocínio, cada um de nossos atos está dentro desse "tempo de escolha". Nossas particularidades de personalidade, se devidamente avaliadas por nós, podem estar dentro de nossas escolhas. Por mais difícil que seja, conseguimos mudar. Como diz a música, "pau que nasce torto morre torto, mas eu não sou pau...".
Daí, uma característica que desejemos mudar é alvo de um processo. Primeiro, cognitivo. Precisamos conhecer essa características e seus gatilhos, para entender seus processos, a fim de evitá-los.
Nenhuma mudança desse tipo é instantânea. É composta por tentativas várias, constatações de insucesso, frustrações. Muitas batalhas com derrotas. Mas, ao longo do tempo, com perseverança e força de vontade, a vitória é possível. Mas muitas pessoas não acreditam nisto. São escravas de suas próprias reações, em vez de serem os donos delas.

Um exemplo disto: conversando com um amigo, ele reclamou da pressão para deixar de fumar, por parte de familiares e amigos. E desabafou: "-- Eu não consigo. Já tentei outras vezes e não consegui. Não vai ser diferente desta vez. Estou tentando, mas vai chegar uma hora que não vou agüentar".
Este é o ponto vital desse tipo de transformação. O ânimo deste meu amigo era no sentido da derrota. Ele antevia que não iria agüentar, quando deveria mentalizar o sucesso. Aceitando a premissa de desistência, óbvio que uma hora ele desistiria. Provando, assim, que ele não conseguia...

Quando não temos outra saída, a coisa é mais fácil. Se ele aceitasse como única opção a vitória, qualquer outra possibilidade seria encarada somente como obstáculo a vencer. Como ele viu a derrota como definitiva, a capitulação encerraria o ciclo. O fato é: ele já tinha uma desculpa para desistir.
"Eu não consigo!".
Uma bela desculpa. Para os amigos e familiares, uma idéia de abnegação, esforço... Para si mesmo, uma idéia atraente: "- Tentei e não consegui". Acho que não passa de uma desculpa para si mesmo, para quando desistisse.

Em minha juventude, fui uma pessoa muito intolerante. Tinha nenhuma paciência com erros e falhas alheias. Foi bom? Sim, era eficiente. Até que um dia, um chefe me chamou para uma conversa. Na abordagem tradicional, primeiro elogiou meus pontos fortes. Depois, veio o indefectível "mas": eu esperava das pessoas exatamente o que se espera de um computador, depois que se aperta o "enter". E as pessoas não são assim. Erram e acertam por si mesmos.

Briguei um pouco com a idéia. Ela me afastava de uma vida inteira cultivando o perfeccionismo. Enfim, aceitei. As pessoas não podem reagir como máquinas. Pois há tantas coisas que interferem nos atos de cada um, que o resultado só pode mesmo ser imponderável. Aceitei e evoluí. Minha literatura, até então técnica, buscou algo do comportamento. E aprendendo fui. Até que aprendi que a melhor maneira de conhecer os outros seria conhecendo a mim mesmo, minhas reações. Parece lugar-comum, e talvez o seja. Mas foi um achado para mim.

Iniciei um "tour" pelas minhas reações, e passei a controlá-las. Penoso, pois questionei cada uma das reações "novas" em relação a minha vida, até então. Difícil aceitar que os atos anteriores eram inadequados, de acordo com essa nova orientação em minha vida. Mas necessário.

A respeito disto, vivi uma experiência pedagógica. Ao assumir a chefia de um setor num banco onde trabalhei, encontrei pessoas que lá estavam bem antes de mim. E que, por conseqüência, conheciam muito mais do dia-a-dia que eu jamais iria conhecer. Uma das minhas tarefas era conferir e validar vários procedimentos dos subordinados. Uma funcionária, todos os dias colocava sobre minha mesa um punhado de papéis, com uma fita de soma grampeada. Depois de conferir, era necessário tirar essa fita de soma, o que consumia alguns minutos. Pedi a ela, então, que não anexasse mais essas somas. Mas, nos dias seguintes, a fita continuava vindo grampeada! Disse a ela, então, que eu não queria mais as fitas. E continuavam vindo! Até que, depois de muitas solicitações, exigi que ela não anexasse mais a fita. E, no primeiro dia em que ela não anexou a fita, seu desconforto era flagrante. Ao final do dia, fomos conversar. E ela, muito claramente, me explicou a resistência e o mal-estar: já havia três anos que ela fazia aquele serviço, exatamente do mesmo jeito, com a fita de soma anexada. Aí, apareço eu, sem conhecer nada do serviço, e digo a ela que não precisava mais da maldita soma. Mesmo depois que ela percebeu que realmente a fita não era necessária, resistiu muito a deixar de mandá-la. Por quê? Porque ela avaliou, corretamente, mas de forma frustrante, que nos três anos em que ela anexara a fita, perdera muito tempo. Foram três anos fazendo um serviço completamente inútil. Daí a resistência! Aprendi minha lição!

Mas se encararmos cada guinada em nossa vida como passo necessário em nossa evolução pessoal, esse tipo de sentimento tende a ser minimizado. O passado, ninguém pode mudar, óbvio. Mas o futuro pode ser um pouco mais racional e sensato. Daí, mudemos!

Meu amigo não parou de fumar. Mas assumiu que não queria mesmo parar. E parou de fazer o jogos dos outros, para dizer simplesmente: "- Eu não quero parar!". Parou de se sabotar, e resolver, pelo menos neste caso, ser objetivo.

E, da mesma forma, espero que aquele outro amigo entenda que as coisas que em nossa personalidade são decorrentes de uma escolha pessoal não devem ser objeto de mudanças, exceto quando nós mesmos desejarmos. Mas ele fez questão de me recomendar que sempre aceitasse o feedback, e sempre refletisse sobre o comportamento, para que a falta de mudança não seja acrítica, mas uma escolha deliberada.

Ok. Ouço e obedeço.

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