quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Ecologia e sobrevivência

Numa de minhas viagens ao norte do país, dois fatos merecem destaque, sob o ângulo da ecologia:

Numa tarde dessas bem quentes, fomos nadar num igarapé. De caminhão, viajamos um tempo considerável, antes de podermos nos refrescar. O cenário, ao chegarmos, era incrível! Uma curso d’água, estreito e com uns 2,5 m de profundidade, com uma temperatura deliciosa, cheia de nenúfares. Águas cristalinas, sob a sombra da floresta amazônica, com árvores repletas de aves locais e animais como o camaleão eram de um cenário de fantasias.
Nadamos, brincamos, deixamos a correnteza nos levar de um ponto a outro, num dia muito bem aproveitado.
Na volta, ao afastarmos-nos do local, de repente o caminhão deixa as sombras das árvores para entrar num descampado, com sinais óbvios de desmatamento.

Neste ponto, meu olhar me traiu. Uma das mulheres que estavam conosco olhou para mim e disse:
-- Eu sei o que você está pensando. Está pensando que nós não deveríamos desmatar desse jeito. Mas não temos outra saída. A mata esconde perigos, como cobras, onças, pequenos insetos, escorpiões. Pense se você gostaria que as crianças brincassem em lugares assim. É muito fácil criticar, quando se vive em ruas asfaltadas, em quintais cimentados. Aqui, se uma cobra o pega, a morte é quase certa. E esse pessoal (os madeireiros) traz trabalho para nós. Não seja tão rigoroso.
Pensei imediatamente nas filhas dela. Três meninas, a mais velha de 13 anos. E dei razão a ela. Daqui, a ecologia pode ter um significado. Mas lá, no meio da mata, talvez haja uma realidade diferente.


Na outra experiência, estava ainda mais para o interior da Amazônia. Numa manhã, vários dos moradores foram me acordar.
-- Venha tirar umas fotos, veja o que nós pegamos!
E lá fui eu, ainda sonolento, de câmara fotográfica em mãos, ver o que tinham capturado.
E foi surpreendente. Uma tartaruga que, de pé (ou seja, o tamanho do casco), chegava quase aos meus ombros. Tinha por volta de 1,6 m.
Quis saber como a tinham capturado. E me explicaram: naquela época do ano, os rios sobem devido às chuvas. E a pesca fica muito mais difícil, já que há uma área muito maior para os peixes se espalharem. Depois de muito tentar, sem nada conseguir, alguém viu pegadas de tartaruga na areia. E, como é um animal muito lento, não foi difícil localizá-la e capturá-la.
Tirei muitas fotos. Minhas, dos moradores com a tartaruga, da própria tartaruga. Enfim, uma festa. Aí, disse a eles que iria tomar um café e que voltaria mais tarde para tirar mais fotos.
-- Mais tarde? Mais tarde não tem mais tartaruga, não.
-- Por quê?
-- Porque nós vamos comê-la.
Em vista de minha incredulidade, me explicaram: a pesca era para consumo. Como não tinham achado nada de peixe, tinham de comer alguma coisa. E aquela tartaruga daria para alguns dias. Era linda, mas não tinham outra escolha.

Fui tomar meu café, triste da vida. Um pouco antes do almoço, fui ver o que sobrara da tartaruga. Um belo casco, e uns pedaços de carne no freezer da cidade, para consumo nos próximos dias.

E, ali, no meio da bacia Amazônica, tinha mesmo de concordar com eles. Se não fosse a tartaruga, o que iriam comer?

Parece que a ecologia, ou a proteção ao meio ambiente, tem limites que raramente nos são apresentados. Nessa cidade, com luz elétrica somente uma hora por dia, onde um dos grandes desejos era ter linha de nylon para fazer redes de pesca, o tema mais importante não poderia ser ecologia. Mas sobrevivência. Só é possível entender isto quem vive essa experiência.

Obs: a foto acima foi obtida neste link: http://fragmagens.blog.simplesnet.pt/archive/002038.html

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