quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Motorista filósofo

Pego um táxi em Recife, e o motorista logo puxa conversa.
Falo a ele sobre meu espanto com o enorme movimento de carros em frente ao hotel onde estou. E ele responde, bem humorado:
-- Ninguém mais quer trabalhar, não. Com a ajuda do governo, agora o pessoal só quer praia.

Em primeiro lugar, acho o nordestino o povo mais afável e amável do Brasil. Nunca tinha me passado pela cabeça algo tão
rigoroso como o julgamento que este motorista fez de seus conterrâneos. Em segundo lugar, pela nossa conversa, ele é um dos fâs de Lula. Disse que ninguém nunca quis saber do nordeste, mas o Lula, conterrâneo, se preocupava e fazia muito pelo nordeste. Não é, portanto, nenhuma manifestação contra os nordestinos ou contra o governo Lula. É só uma observação que me fez um motorista de táxi.

Isto aconteceu no sábado (24/2). De volta a Campinas, vejo a manchete da Folha de São Paulo de domingo (25/2):
- "Benefícios sociais afastam trabalhador de emprego formal". Logo abaixo, o subtítulo: "Fazendas do NE não conseguem encontrar quem aceite trabalhar com carteira assinada por medo de perder Bolsa Família".
É, o motorista tinha razão. Tristemente.

Li um trabalho certa vez que fazia um estudo de produtividade em empresas, e comparava os resultados em função dos benefícios oferecidos (assistência médica, plano de saúde, creche,etc). A surpresa do estudo fica por conta da constatação de que as piores produtividades se encontravam nas empresas que mais ofereciam benefícios. Já aquelas onde esses eram raros ou inexistente, a produtividade era altíssima. Coincidência? Não parece.

Os trabalhadores do Brasil estão passando por tempos difíceis. E isto já há um bom tempo. Tempos em que encontrar emprego é, sim, um problema. Mas, pior, é estar ou ficar sem condições de sustentar a família. Por isto, acho que o receio maior dessas pessoas é que, por uma instabilidade de mercado, o emprego oferecido lhes fuja. E daí? É a volta da necessidade, dos tempos difíceis. E, com as regras desses benefícios o governo, eles não mais os receberiam. Quem pode condená-los?


O governo Lula está fazendo um bem. Deve aprimorar esse bem. Por enquanto, está dando o peixe, como deveria mesmo fazer. Está na hora de ensinar a pescar. Mas talvez ensinar a pescar não garanta nem popularidade nem votos. Pena.

Nas palavras do motorista:

- O Nordestino era um forte. Agora é um fraco, que só quer saber de mamar no governo.
Desculpe, meu amigo, acho que não é verdade É puro instinto de sobrevivência.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Tributo à minha filha

No avião, entra um casal com uma menininha de, no máximo, uns 10 meses. Achei que a viagem fosse ser penosa para ela, mas não foi assim. Ela se divertiu, no seu mundo alheio ao vôo.
Lembrei-me de minha própria filha, e de vários momentos que tivemos.

Primeiro, as cólicas. Indefesa, chorando de dor, que saída tem o pai? Eu a deitava em minha barriga, estando eu deitado também, e fazia massagens nas suas costas, até a dor ceder e ela adormecer. Nessa altura, já eu meio dormindo, meio massageando... Até que, madrugada a meio, a punha no berço.


Depois, já maiorzinha, divertíamos-nos quando eu literalmente a jogava para cima, e a apanhava na volta, deliciado com seu riso quase convulsivo. E, diversão certa, gritava ela:

-- Mais! Mais!


E cada vez mais, crescia. E com o tamanho veio a independência, cada vez maior. E, cada vez mais, ela precisava menos de mim.


Outras felicidades apareceram. Gosta de ler, e gosta de conversar sobre o que leu. Compartilha as coisas toscas e as interessantes. Compartilha o inesperado, e o óbvio. E, crítica, não deixa passar nada. Sentada à frente do seu micro, é ela quem ilumina a casa


Acontece que eu gostava daqueles tempos idos. Gostava de sua doce necessidade de minha massagem. Gostava de sua inebriante risada, e seu cansativo pedido por mais. E, agora, nova fase, eu gosto, também. Gosto de sua ânsia por conversa. Gosta da necessidade que ela tem de analisar, ser crítica, gosto de seu perfeccionismo, que só me faz me lembrar do meu próprio.


O bebê cresceu, hoje é uma adolescente de 14 anos. Repudio o termo “aborrecente”, por pejorativo e generalizante. E repudio ainda mais em relação a minha filha, que pulou essa fase.


Fui muito criticado quando ela ainda era aquele bebê pequenino. Diziam que eu falava com ela e a tratava como se fosse adulta. Acho que é verdade. Talvez eu tenha, inadvertidamente, subtraído uma fase natural do seu desenvolvimento. Mas parece que ela não está sentindo falta. Porque vejo como ela se diverte, com assuntos e temas que deveriam ser de adultos, mas que são tratados com a saudável sem-cerimônia dos adolescentes. E se diverte com descobertas inesperadas que me deixam embasbacado e interessado. E se diverte, sendo assim diferente de sua linha de tempo.

O bebê hoje é uma grande amiga, e não é por falta de opções (dela). Parece que eu, de alguma forma, mereci sua amizade.


Hoje, suas cólicas são de outra natureza. Já não precisa mais de mim...

Sinto saudades dela até mesmo quando estou com ela. Mas, permita-me, minha filha, sentir saudade também de outros tempos seus. Infelizmente eles não voltarão mais. Felizmente, você terá muitos outros momentos, e espero estar ao seu lado para compartilhá-los com você.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Problemas dos poderes

Carnaval e ano novo
Agora que o carnaval vai acabar, começa o ano de 2007 no Brasil. Infelizmente, é a pura verdade: o ano de ações concretas só começa depois da folia. Mas parece que esta é uma verdade até do presidente Lula. Depois de sua (re)posse, seus ministros ainda estão com a espada de Dâmocles sobre suas cabeças. A mídia vem dando exposição a essa paralisia, ao que o presidente respondeu estar “somente com o carnaval na cabeça”. É duro, mas é verdade. Esperemos que o presidente já diga imediatamente quem é que vai ser ministro, ou vai estar ministro (como disse Eduardo Portella. lá nos anos Figueiredo). O PAC não vai precisar dos ministros? Se o plano mais importante deste governo prescinde dos ministros, precisamos deles?

Poderes
Parece que os poderes nem são independentes. O Senado tem por presidente homem do PMDB, que está no DNA do governo Lula. A Câmara tem como presidente um homem do PT, que, embora não tão chegado assim ao presidente, é do seu partido. O que se pode esperar?
Aliás, quem se lembra do Renan Calheiros (presidente do senado) na época do Collor, defendendo o chefe com unhas e dentes? Ele e o chefe do batalhão de choque, o Roberto Jefferson, acólitos dos mais importantes. Um, desgraçou-se. O outro, ainda está com o poder nas mãos. Dizia um amigo meu: o lobo perde o pêlo, mas não perde o couro.

E eu, ingenuamente, sempre pensei que os poderes tinham vida própria. Achava que o Legislativo fazia de fato leis, de acordo com a vontade dos eleitores. Mas as definições dos livros estão erradas: eles realmente as fazem, mas de acordo com a vontade do executivo e deles mesmos.
Aumento salarial? Rapidinho. Reforma do código civil? Décadas.

Unanimidade burra
Agradecendo Nelson Rodrigues.
Sempre que alguém entende que se falou algo contra a democracia, é uma gritaria geral. Discursos na tribuna do Congresso, editoriais de jornais, palavras de “especialistas”... Todos em defesa da Democracia, em perigo por causa da vontade lá, daquele primeiro, que disse alguma coisa...
A democracia não é estacionária. Não é um estado absoluto das coisas. Ao contrário, é orgânica, relativa, precisa evoluir. Como tudo nesta vida, precisa da evolução até como garantia de existência. Mas alguns “çábios” (como diz o excepcional Élio Gaspari) acham que, como a democracia se faz através dos poderes, deles devem vir as soluções. Exemplo: o congresso precisa de limites aos seus poderes? O Congresso deve votar uma lei nesse sentido. Ora, quem é que chuta contra o próprio gol? Por que acreditar que os próprios votariam contra privilégios estabelecidos? Já se viu deputado contra seu aumento salarial? Justiça se faça ao nobre deputado Fernando Gabeira e outros poucos, que tiveram coragem de se dizer contra. Mas, na grande maioria, deputados trabalham de terça a quinta. Têm as maiores férias do país. Não fazem seu trabalho básico, o de montar, discutir e aprimorar nossas leis. Mas ganham, e ganham muito, como se tivessem fazendo exatamente isto. E serão eles a impor uma regra contra esse destrabalho (perdão pelo neologismo)?

Justiça a Lula: ele sugeriu um plebiscito para definir “grandes questões nacionais”, e foi mais criticado que habitualmente, mesmo pelos aliados. Pelos grandes meios de comunicação, até. Ora, mas se essas grandes questões nacionais não estão sendo tratadas pelos canais (in)competentes, por que eu não posso dar o meu voto diretamente? Bem que eu gostaria.

1984

Há muitos anos (em 1948), George Orwell escreveu talvez a maior obra de ficção política da História, 1984. Lá, além do Big Brother (foi de lá que se tirou esta idéia) e do “Ministério da Verdade” (o Miniver, em Novilíngua), ele faz previsões incrivelmente atuais, hoje, há dez anos, ou daqui a vinte anos. Pois eu vou fazer também uma previsão: tempo chegará, nesta terra das urnas eletrônicas, que plebiscito se dará pela internet, e algumas questões serão decididas diretamente pelo povo, prescindindo de seus chamados representantes. As grandes questões, imagino. Porque as pequenas, estas podem ficar para aqueles que deveriam ser os operários das leis, seus construtores, seus mantenedores: os legisladores.
Então, o país precisa decidir se vai adotar a fidelidade partidária. Quem vota? Claro que não amarraremos os cachorros com lingüiças. Votamos nós, os detentores da vontade. E quem é que votaria e lei complementar (se fosse o caso) que concretizasse essa vontade popular? O congresso. Um passo à frente na democracia. Chega de atravessadores!

Poder Judiciário e decisões
Outra coisa me chama muito a atenção nesta Terra de Santa Cruz. Sempre que o poder judiciário toma uma decisão de grande repercussão, as notícias dão conta que o “judiciário quer”, o “judiciário decidiu”, ou “judiciário manda”... Sempre em tom de crítica, como se o Poder Judiciário fosse um ente ranzinza que baseasse suas decisões no grau de aborrecimento que elas causariam. O Judiciário não é isto. Devemos louvar que alguém, neste país, está ainda a defender o que o legislador escreveu. E, se o judiciário resolver, mandou, decidiu, quer, é porque a lei assim prevê.
Um exemplo disto é a recente proibição dos vôos de determinadas aeronaves em Congonhas. O judiciário deveria chamar a ANAC, as companhias aéreas, os passageiros, para tomar uma decisão? Não me parece que seja assim. Acho que o certo é: a regra diz isto, então assim deve ser. E assim deve decidir o judiciário. A regra está errada? Ok, cabe ao Congresso aperfeiçoá-la. Criticar a decisão pode ser comparado a matar o mensageiro de uma má notícias.

Sobre:
A Espada de Dâmocles: leia em http://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%A2mocles;

1984, obra de George Orwell: (se você for ler o livro, não vá até o fim do verbete) http://pt.wikipedia.org/wiki/Mil_novecentos_e_oitenta_e_quatro

Sobre Nélson Rodrigues: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_rodrigues

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Ecologia e sobrevivência

Numa de minhas viagens ao norte do país, dois fatos merecem destaque, sob o ângulo da ecologia:

Numa tarde dessas bem quentes, fomos nadar num igarapé. De caminhão, viajamos um tempo considerável, antes de podermos nos refrescar. O cenário, ao chegarmos, era incrível! Uma curso d’água, estreito e com uns 2,5 m de profundidade, com uma temperatura deliciosa, cheia de nenúfares. Águas cristalinas, sob a sombra da floresta amazônica, com árvores repletas de aves locais e animais como o camaleão eram de um cenário de fantasias.
Nadamos, brincamos, deixamos a correnteza nos levar de um ponto a outro, num dia muito bem aproveitado.
Na volta, ao afastarmos-nos do local, de repente o caminhão deixa as sombras das árvores para entrar num descampado, com sinais óbvios de desmatamento.

Neste ponto, meu olhar me traiu. Uma das mulheres que estavam conosco olhou para mim e disse:
-- Eu sei o que você está pensando. Está pensando que nós não deveríamos desmatar desse jeito. Mas não temos outra saída. A mata esconde perigos, como cobras, onças, pequenos insetos, escorpiões. Pense se você gostaria que as crianças brincassem em lugares assim. É muito fácil criticar, quando se vive em ruas asfaltadas, em quintais cimentados. Aqui, se uma cobra o pega, a morte é quase certa. E esse pessoal (os madeireiros) traz trabalho para nós. Não seja tão rigoroso.
Pensei imediatamente nas filhas dela. Três meninas, a mais velha de 13 anos. E dei razão a ela. Daqui, a ecologia pode ter um significado. Mas lá, no meio da mata, talvez haja uma realidade diferente.


Na outra experiência, estava ainda mais para o interior da Amazônia. Numa manhã, vários dos moradores foram me acordar.
-- Venha tirar umas fotos, veja o que nós pegamos!
E lá fui eu, ainda sonolento, de câmara fotográfica em mãos, ver o que tinham capturado.
E foi surpreendente. Uma tartaruga que, de pé (ou seja, o tamanho do casco), chegava quase aos meus ombros. Tinha por volta de 1,6 m.
Quis saber como a tinham capturado. E me explicaram: naquela época do ano, os rios sobem devido às chuvas. E a pesca fica muito mais difícil, já que há uma área muito maior para os peixes se espalharem. Depois de muito tentar, sem nada conseguir, alguém viu pegadas de tartaruga na areia. E, como é um animal muito lento, não foi difícil localizá-la e capturá-la.
Tirei muitas fotos. Minhas, dos moradores com a tartaruga, da própria tartaruga. Enfim, uma festa. Aí, disse a eles que iria tomar um café e que voltaria mais tarde para tirar mais fotos.
-- Mais tarde? Mais tarde não tem mais tartaruga, não.
-- Por quê?
-- Porque nós vamos comê-la.
Em vista de minha incredulidade, me explicaram: a pesca era para consumo. Como não tinham achado nada de peixe, tinham de comer alguma coisa. E aquela tartaruga daria para alguns dias. Era linda, mas não tinham outra escolha.

Fui tomar meu café, triste da vida. Um pouco antes do almoço, fui ver o que sobrara da tartaruga. Um belo casco, e uns pedaços de carne no freezer da cidade, para consumo nos próximos dias.

E, ali, no meio da bacia Amazônica, tinha mesmo de concordar com eles. Se não fosse a tartaruga, o que iriam comer?

Parece que a ecologia, ou a proteção ao meio ambiente, tem limites que raramente nos são apresentados. Nessa cidade, com luz elétrica somente uma hora por dia, onde um dos grandes desejos era ter linha de nylon para fazer redes de pesca, o tema mais importante não poderia ser ecologia. Mas sobrevivência. Só é possível entender isto quem vive essa experiência.

Obs: a foto acima foi obtida neste link: http://fragmagens.blog.simplesnet.pt/archive/002038.html

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Força de vontade

Conversando com um amigo, ele fez referência a uma caraterística qualquer minha, dizendo que ela o irritava profundamente. Disse a ele que, por mais que o irritasse, não via porque mudar, já que eu preferira agir daquela forma. Ao que ele replicou que este é daquele tipo de coisas que nós nunca conseguirmos mudar, é impossível.

Lembrei-me de Steven Covey, e seu Livro "Os sete hábitos de pessoas muito eficientes" (ou Eficazes, a depender a edição. No original é effective, mas a tradução não corresponde à idéia do autor). No livro, uma obra-prima dos livros de auto-ajuda (mas que não é, segundo o autor, um livro de auto-ajuda), o autor fala como embasamento aos sete hábitos, de algumas das facetas da personalidade e caráter. Mas diz, como idéia principal, que entre uma ação e uma reação (nossa resposta ao estímulo), há um tempo, necessariamente. Segundo, milésimos de segundo, mas existe um tempo. E que, nesse interstício, podemos escolher nossa reação. E que podemos, se quisermos, escolher uma reação produtiva, ou, ao menos, não destrutiva. Cita Eleanor Roosevelt como exemplo, com sua frase "as pessoas só podem te ferir com teu consentimento", para expressar justamente a idéia de que nós aceitamos ou não a provocação.
Nesta linha de raciocínio, cada um de nossos atos está dentro desse "tempo de escolha". Nossas particularidades de personalidade, se devidamente avaliadas por nós, podem estar dentro de nossas escolhas. Por mais difícil que seja, conseguimos mudar. Como diz a música, "pau que nasce torto morre torto, mas eu não sou pau...".
Daí, uma característica que desejemos mudar é alvo de um processo. Primeiro, cognitivo. Precisamos conhecer essa características e seus gatilhos, para entender seus processos, a fim de evitá-los.
Nenhuma mudança desse tipo é instantânea. É composta por tentativas várias, constatações de insucesso, frustrações. Muitas batalhas com derrotas. Mas, ao longo do tempo, com perseverança e força de vontade, a vitória é possível. Mas muitas pessoas não acreditam nisto. São escravas de suas próprias reações, em vez de serem os donos delas.

Um exemplo disto: conversando com um amigo, ele reclamou da pressão para deixar de fumar, por parte de familiares e amigos. E desabafou: "-- Eu não consigo. Já tentei outras vezes e não consegui. Não vai ser diferente desta vez. Estou tentando, mas vai chegar uma hora que não vou agüentar".
Este é o ponto vital desse tipo de transformação. O ânimo deste meu amigo era no sentido da derrota. Ele antevia que não iria agüentar, quando deveria mentalizar o sucesso. Aceitando a premissa de desistência, óbvio que uma hora ele desistiria. Provando, assim, que ele não conseguia...

Quando não temos outra saída, a coisa é mais fácil. Se ele aceitasse como única opção a vitória, qualquer outra possibilidade seria encarada somente como obstáculo a vencer. Como ele viu a derrota como definitiva, a capitulação encerraria o ciclo. O fato é: ele já tinha uma desculpa para desistir.
"Eu não consigo!".
Uma bela desculpa. Para os amigos e familiares, uma idéia de abnegação, esforço... Para si mesmo, uma idéia atraente: "- Tentei e não consegui". Acho que não passa de uma desculpa para si mesmo, para quando desistisse.

Em minha juventude, fui uma pessoa muito intolerante. Tinha nenhuma paciência com erros e falhas alheias. Foi bom? Sim, era eficiente. Até que um dia, um chefe me chamou para uma conversa. Na abordagem tradicional, primeiro elogiou meus pontos fortes. Depois, veio o indefectível "mas": eu esperava das pessoas exatamente o que se espera de um computador, depois que se aperta o "enter". E as pessoas não são assim. Erram e acertam por si mesmos.

Briguei um pouco com a idéia. Ela me afastava de uma vida inteira cultivando o perfeccionismo. Enfim, aceitei. As pessoas não podem reagir como máquinas. Pois há tantas coisas que interferem nos atos de cada um, que o resultado só pode mesmo ser imponderável. Aceitei e evoluí. Minha literatura, até então técnica, buscou algo do comportamento. E aprendendo fui. Até que aprendi que a melhor maneira de conhecer os outros seria conhecendo a mim mesmo, minhas reações. Parece lugar-comum, e talvez o seja. Mas foi um achado para mim.

Iniciei um "tour" pelas minhas reações, e passei a controlá-las. Penoso, pois questionei cada uma das reações "novas" em relação a minha vida, até então. Difícil aceitar que os atos anteriores eram inadequados, de acordo com essa nova orientação em minha vida. Mas necessário.

A respeito disto, vivi uma experiência pedagógica. Ao assumir a chefia de um setor num banco onde trabalhei, encontrei pessoas que lá estavam bem antes de mim. E que, por conseqüência, conheciam muito mais do dia-a-dia que eu jamais iria conhecer. Uma das minhas tarefas era conferir e validar vários procedimentos dos subordinados. Uma funcionária, todos os dias colocava sobre minha mesa um punhado de papéis, com uma fita de soma grampeada. Depois de conferir, era necessário tirar essa fita de soma, o que consumia alguns minutos. Pedi a ela, então, que não anexasse mais essas somas. Mas, nos dias seguintes, a fita continuava vindo grampeada! Disse a ela, então, que eu não queria mais as fitas. E continuavam vindo! Até que, depois de muitas solicitações, exigi que ela não anexasse mais a fita. E, no primeiro dia em que ela não anexou a fita, seu desconforto era flagrante. Ao final do dia, fomos conversar. E ela, muito claramente, me explicou a resistência e o mal-estar: já havia três anos que ela fazia aquele serviço, exatamente do mesmo jeito, com a fita de soma anexada. Aí, apareço eu, sem conhecer nada do serviço, e digo a ela que não precisava mais da maldita soma. Mesmo depois que ela percebeu que realmente a fita não era necessária, resistiu muito a deixar de mandá-la. Por quê? Porque ela avaliou, corretamente, mas de forma frustrante, que nos três anos em que ela anexara a fita, perdera muito tempo. Foram três anos fazendo um serviço completamente inútil. Daí a resistência! Aprendi minha lição!

Mas se encararmos cada guinada em nossa vida como passo necessário em nossa evolução pessoal, esse tipo de sentimento tende a ser minimizado. O passado, ninguém pode mudar, óbvio. Mas o futuro pode ser um pouco mais racional e sensato. Daí, mudemos!

Meu amigo não parou de fumar. Mas assumiu que não queria mesmo parar. E parou de fazer o jogos dos outros, para dizer simplesmente: "- Eu não quero parar!". Parou de se sabotar, e resolver, pelo menos neste caso, ser objetivo.

E, da mesma forma, espero que aquele outro amigo entenda que as coisas que em nossa personalidade são decorrentes de uma escolha pessoal não devem ser objeto de mudanças, exceto quando nós mesmos desejarmos. Mas ele fez questão de me recomendar que sempre aceitasse o feedback, e sempre refletisse sobre o comportamento, para que a falta de mudança não seja acrítica, mas uma escolha deliberada.

Ok. Ouço e obedeço.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Vídeo da Experiência de Milgram (Obediência e consciência)

O vídeo abaixo é um relato da experiência descrita no post abaixo (http://renatookano.blogspot.com/2007/02/obedincia-e-conscincia.html) .

Note que o Dr. Milgram pergunta: " - como pôde o povo alemão permitir a matança de milhares de judeus?".

Para entender essa "obediência", vale a pena conhecer a experiência. Controvertida, é considerada anti-ética nos dias de hoje. Mas, sem dúvida, nos mostra uma das facetas do comportamento humano.

O video é em inglês.





Updated em 08/06/2008: o vídeo acima foi retirado do ar. Coloco uma seqüência extraída do filme I... como Ícaro, francês, que retrata a experiência.




Updated em 05/07/2008: outro vídeo, já que o primeiro não se escontra mai disponível:

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Quem é seu deputado?

Quando acontece alguma coisa que depende do congresso e, por isto mesmo, nada é feito, um dos clamores de mídias e formadores de opinião é: procure o deputado em quem você votou. Nessas mesmas ocasiões, lembram todos daquelas estatísticas que mostram que o povo sabe em quem votou para os cargos majoritários, mas não para vereador, deputado estadual, deputado federal...

Acho que isto é uma grande bobagem. Uma das grandes lições da democracia é que maioria prevalece, mas não sobrepuja ninguém. O presidente em quem não votei nem por isto deixa de ser "meu" presidente. isto é, ele está lá também para zelar pelos meus interesses. Este é um dos motivos porque os votos são secretos. Eleito, deve estar a serviço de todos. Ponto final.

Assim é o caso dos cargos não majoritários. Seu candidato não ganhou? O que ganhou passa a defender seus interesses, da mesma forma. Aliás, os que ganharam. Cores ideológicas à parte (como se ideologia no Brasil definisse atuação parlamentar), o deputado eleito deve zelar pelos interesses de todos. Isto também é democracia.

Tudo isto para dizer que não concordo com a orientação presidencial de não discutir a maioridade penal. O Brasil funciona aos espasmos. Normalmente causados por tragédias, escândalos, etc. Este é um caso. Este espasmo causado pela morte do João Hélio pode e deve ser aproveitado, sob pena de não passarmos das discussões. Nestas horas de tragédia, todos mobilizados pela causa, o momento é apropriado.

Com relação ao argumento presidencial, o de que nas horas de comoção não é bom tomar esse tipo de decisão, discordo novamente. Pelo simples fato de que não estamos falando de discussões de futebol em boteco. Estamos falando de decisão a ser tomada pelo conjunto de representantes do país, que deve, esperamos, ter o discernimento necessário para que a decisão fique adstrita ao bom senso. Se o congresso fará realmente isto, é outra história.

E os egos?

Mas já começou! Diz a Folha de São Paulo que as casas do congresso (Câmara e Senado) podem estar em disputa pelas leis decorrentes desse escândalo da violência. Novamente, a realidade do país é um detalhe perto dos egos corporativistas. Será que alguém diferencia atos do senado e da câmara para avaliar a atuação parlamentar? Ou será que o Brasil, depois de tanto escândalo, já considera todos como "farinha do mesmo saco"? A diferenciação acontecerá quando e se a casa (câmara ou senado) começar a agir em prol do Brasil. E, mesmo assim, se as atuações forem convincentes, há de chegar o tempo em que, de novo, essa imagem se fundirá. A diferença que é a fusão será em torno de uma boa imagem.

João Hélio

Outras tragédias, algumas recentes, já tiveram o condão de iniciar discussões sobre maioridade penal, penas alternativas, FEBEM, etc. O menino morto no incêndio do carro causado pelos bandidos, por exemplo. Mas o caso João Hélio mobilizou como nunca este país do marasmo. A morte nunca tem sentido, mas esta não precisa ser assim. Uma violência que abreviou uma vida de seis anos, de alguém que sequer tinha idade para compreender o perigo. Estava no banco do carro, por isto foi que morreu? Punição aos criminosos, punição maior aos casos semelhantes, nos termos da lei.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Um pouco mais sobre a impunidade

Puristas

É, mãos à palmatória.
Sempre fui um purista, e agora estão me cobrando isto.

É sobre a punição dos criminosos-assassinos do menino João Hélio: a mudança da lei não vai atingir esses criminosos, a não ser que seja para o bem deles. Isto mesmo, bem dos criminosos. É que o Brasil possui, em sua constituição, um dispositivo que a lei penal só pode retroagir se for em benefício do réu. Porque ela vale sempre para frente, nunca para trás no tempo. Revoltante? Talvez. Mas é a regra do jogo. Um dos acusados somente está nesta berlinda de mídia: aquele que tem 16 anos. Os demais, mesmo com a lei vigente, estão sujeitos a penas reais e convincentes.
Então, puna-se na forma da lei, inclusive o menor, e aperfeiçoe-se a lei, para que, no futuro, nossa sanha por vingança seja satisfeita com uma lei mais apropriada.

Ainda sobre o tema: a revista Veja desta semana apresenta o perfil do “líder” desses criminosos, derrubando por terra a questão da pobreza no cerne da violência.
Não se explica o porquê da violência com generalizações, mas caso a caso. Como a justiça trata as questões, caso a caso. A generalização não ajuda a combater o crime, não diminui a dor da vítima e familiares. Direto ao ponto. Concordo com Veja: é preciso encarar o problema, não precisamos mais de filosofias sobre a natureza humana.
(Não sou fã de Veja, mas acho que é leitura obrigatória. Neste caso, concordo.).

Golpe do Seqüestro
Concidentemente(?), Veja desta semana e a Folha de São Paulo de 17/2 trazem reportagens sobre o golpe do seqüestro, perpetrado normalmente por presidiários, que ligam para alguém dizendo ter seqüestrado algum familiar, e, de acordo com as reações da vítima e com as informações que ela passa, vão aterrorizando pessoas e conseguindo algumas vítimas. A morte da aposentada, nesta semana, trouxe o assunto à tona.
Pois bem, tive contato com uma situação destas, em que a vítima ligou para o “seqüestrado”, que, por uma injunção de fatores, não pôde atender. A situação realmente era desesperadora, e o fato de a vítima não atender ao celular só agravou a situação. O terror era real, e, honestamente, não sei como lidar com a questão. Eu, frio por natureza, ficava me perguntando: e se for verdade?
Então, como resolver? Difícil. O ideal era que esses criminosos, que teoricamente estão sob vigilância (proteção?) da lei, dentro de presídios, não pudesse usar celulares, o que evitaria o crime. Esta é daquelas coisas que são uma utopia, e nós não conseguimos entender o porquê.

Obediência e Consciência

Reproduzo abaixo um trecho do livro “Eu estou Ok Você está Ok”, do Dr. Thomas A. Harris, da década de 60.
Tive contato com a experiência num curso do qual participei, e confesso ter ficado impressionado a ponto de me lembrar com freqüência do tema.
O contexto era outro, uma formação profissional, mas cabe bem em nosso cotidiano, especialmente nas nossas omissões de julgamento.
As aplicações são infindáveis, e reproduzo o texto para ter matéria comum para outras experiências reais que quero narrar.

Primeiro, o texto. Acho que ele é tão surpreendente, que volto a ele somente daqui a alguns dias, para dar tempo de digestão.

A ele:

“... o trecho seguinte é retirado inteiramente do artigo de Crawshaw, e relata uma pesquisa efetuada por Stanley Milgram na Universidade de Yale, e que fornece dados que ajudam a responder a essa pergunta:

A pesquisa de Stanley Milgram em Yale começa a pôr um alicerce científico sob as deduções de Cook. Milgram levou a cabo uma série de experiências psicológicas a respeito da obediência. Primeiro, escolheu uma amostra representativa (de vinte e cinco a cinqüenta anos de idade) da população masculina de Bridgeport, incluindo desde operários até profissionais liberais. A experiência visava determinar que grau de punição uma pessoa seria capaz de infligir noutra quando assim lhe ordenassem, mas foi apresentada falsamente como um estudo científico feito sobre técnicas de aprendizagem por um firma chamada "Bridgeport Research Associates". As pessoas que seriam objeto da experiência foram selecionadas ao acaso e receberam quatro dólares como uma compensação pelo tempo gasto.
Um dos pesquisadores foi amarrado a uma "cadeira elétrica" depois que o objeto da experiência (o professor) sofrera um choque de 45 volts para se convencer da autenticidade do aparelho. Depois, de uma sala ao lado, a "cobaia" (professor) passou a comandar o sistema de choques elétricos cada vez mais forte para cada resposta errada dada pelo pesquisador. Este, na verdade, não recebia qualquer choque, mas suas respostas eram murmúrios, exclamações, resmungos, súplicas e gritos gravados numa fita padronizada, e correspondiam à intensidade crescente da voltagem. Como as respostas eram arrumadas a priori pelo experimentador , o único fator limitativo que poderia impedir o professor de produzir a descarga máxima do aparelho seria sua compaixão pela dor sentida por um ser humano. O conflito para o professor (Mr. Everyman) era: obediência ao sistema da autoridade versus sua convicção de que não devia ferir uma outra pessoa.
Qual foi a percentagem dos assim chamados professores que chegaram a dar o choque de intensidade máxima? Antes que o leitor tente adivinhar, é bom que ouça a voz de Mr. Everyman ao controle do aparelho:
Carga de 150 volts: "Quer que eu continue?" (Tom de comando.) 165 volts: "Aquele sujeito está gritando lá dentro. Pode ser que ele sofra do coração. Quer que eu continue?" (Comando.) 180 volts: "Ele não pode agüentar mais. Não vou matar aquele homem lá dentro! Está ouvindo ele gritando? Ele está gritando. Ele não pode agüentar mais. E se alguma coisa lhe acontecer? Sabe o que quero dizer? Recuso-me a aceitar a responsabilidade.' (O experimentador aceita a responsabilidade.) "Está bem." 195 volts, 210, 225, 240 e assim por diante.
O objeto da experiência (o professor) invariavelmente obedeceu ao experimentador. Qual foi a percentagem dos "professores" (quase mil) que seguiram todo o caminho? Faça uma estimativa antes de continuar lendo.
Um grupo de quarenta psiquiatras que estudou o projeto predisse um décimo de um por cento. Na experiência, sessenta e dois por cento obedeceram totalmente às ordens do experimentador. Qual tinha sido o seu palpite?
Milgram conclui: "Com assustadora regularidade, boas pessoas cedem às exigências da autoridade e executam ações perversas e duras. Homens que na vida comum são responsáveis e decentes foram seduzidos pelas armadilhas da autoridade, pelo controle das suas percepções e pela aceitação não-crítica à definição dada pelo experimentado r dos atos que tinham que executar. Os resultados, como foram vistos e sentidos no laboratório, são perturbadores. Eles levantam a possibilidade de que não se pode confiar na natureza humana, ou, mais especificamente, no tipo de caráter produzido pela sociedade democrática americana para impedir seus cidadãos de serem brutais e de tratarem de modo desumano outras pessoas quando dirigidos por uma autoridade malévola. "

Minha edição do livro: 3 Edição, da Editora Record.

Sobre a experiência em si, você pode ler mais neste link, escolhido por ser bem resumido, sem perda de qualidade, embora em inglês: http://www.new-life.net/milgram.htm.

Morte no Amazonas

Foi numa viagem à Região Amazônica. Desci de barco pelo Rio Amazonas, de Manaus até uma cidade já no estado do Pará. Daí, mais um bom tempo de lancha até a cidade em que iria ficar. Por si só, a viagem já vale uma vida. A mais bela paisagem que já vi. O próprio Rio Amazonas, a Serra do Cachimbo, árvores carregadas de araras, o boto cor-de-rosa... Mas o cenário fica pra próxima.

Quando cheguei à cidade, após a natural corrida dos locais para ver o “estranho”, claro que fiz amizade com vários cidadãos, todos ansiosos por mostrar as belezas locais a quem, como eu, estava deslumbrado.

Beleza, tinha em profusão. Conforto, quase nenhum. Pelo menos daqueles a que estamos acostumados. Banheiro, era a “casinha”. Chuveiro, só se alguém jogasse água do rio para cima. A hora do banho era uma pintura, todos de sunga/biquini/maiô no rio, com seus sabonetes e shampoos, num banho comunitário.

Energia elétrica ainda era um luxo dos grandes. Era gerada por motor, movido a um tal de combustol, uma mistura de diesel com alguma coisa, que, claro, custava dinheiro. E que, por isto mesmo, tinha uma restrição: luz elétrica somente uma hora por dia, no início da noite, para ser bem “precisada” e bem aproveitada.

Depois do jantar, uma música como se fosse de praça tocava na cidade inteira, e sua fonte, descobri, era uma das casas no centro, onde um DJ instalara um alto-falante (literalmente) num poste, e tocava as mais pedidas da cidade, e de vez em quando dava umas notícias de interesse geral.
E foi aqui que presenciei uma cenas das mais brasileiras. A uma determinada hora, o DJ solicitou a quem pudesse uma ajuda, em dinheiro, para que fosse comprado mais combustol, de forma que se pudesse realizar o velório de uma pessoa que falecera naquele dia.
Curioso, fui atrás de informações sobre o falecimento. O falecido era um senhor, de meia idade, e não se sabia qual era a causa da morte. Estava se sentindo mal desde a noite anterior e não resistiu. Ninguém sabia o que tivera, e parecia que não interessava muito.
Um dia inteiro, passando mal, com fortes dores de cabeça! Fico pensando em nossas facilidades, nas opções de hospitais, privados ou públicos, poucos, ou muitos, mas sem dúvida presentes. Lá, na margem de baixo do Rio Amazonas, não tinham opção nenhuma.
Aí, fui tentar ajudar, respondendo ao chamado de nosso DJ. Fui até a “emissora” e perguntei quanto poderia dar para ajudar. Humilde, disse que o quanto fosse possível, e explicou que o pedido era somente para dar um conforto à família, que velava o corpo naquele instante. Também eu humilde, no sentido de nem ter muito dinheiro comigo, peguei uma nota de R$ 10,00 e ofereci a ele. Para minha surpresa, esse dinheiro era mais do que suficiente para iluminar o velório durante toda a noite. E o DJ, para minha maior surpresa, não tinha nem palavras para agradecer o gesto, tão desenxavido de minha parte.

Claro que a família apreciou o gesto. Mas foi uma noite memorável, por conta de dois fatores. Um: o meu amigo DJ, querendo a todo custo demonstrar sua gratidão, depois de cada música, agradecia pelo alto-falante a colaboração que dei para o velório. E, dois: como a cidade só tinha energia elétrica uma hora por noite, não havia necessidade da instalação de interruptores nas casas. As lâmpadas se acendiam e apagavam junto com o liga-desliga do gerador. Na casa em que eu estava, a lâmpada ficava, inclusive,num lugar muito alto. Resultado: passei a noite literalmente em claro, já que não havia meios de apagar a luz.

No dia seguinte, não consegui esconder meu assombro no enterro. Saindo da palafita de onde morava, o corpo foi enterrado embrulhado em um lençol, simplesmente. Uma vala ao lado de diversas outras, uma cruz caprichada, encerrou-se a história daquele homem.

Vi muita coisa nessa viagem. Mas essa dor alheia doeu também em mim. Olhando um pouco para minha vida, aqui no Sul Maravilha (como dizia o Henfil) vi que nossa vida é boa. Assim como a morte. E, se a morte lá de cima, para meus padrões, foi para lá de comovente, a vida lá é celebrada e vivida como merece. Por que lá é só isto mesmo que se tem: a vida.

Obs.: Para as novas gerações: Henfil, o Henrique de Souza Filho, foi um cartunista/escritor, criador da Graúna e do Fradim, dentre outros, numa fase criativa dos artistas do Brasil, mesmo que sob a ditadura militar. Ou por causa disto, não sei. Hemofílico, morreu de AIDS contraída numa das transfusões a que se submeteu em decorrência da hemofilia. Vale a pena ler seu livro Henfil na China, onde narrou cenas da China com seu talento enorme. Os mais velhos se lembrarão também do Betinho, irmão do Henfil, padecia do mesmo mal e faleceu da mesma doença, contraída da mesma forma. A Graúna e o Fradim, ambientados no Nordeste, eram um grito de socorro, muito bem humorado, que vinha em direção ao Sul Maravilha.
Mais sobre o Henfil? clique aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Henfil

Um pouco de papo com amigos

Este post foi feito ainda em outro host, que não tinha foto para identificação. Reproduzo aqui para ser fiel à seqüência de posts originalmente adotada.

Sou eu mesmo
Sim, sou o Renato Okano. OU, talvez, um Renato Okano. Resolvi fazer este blog há alguns dias, em parte para satisfazer minha necessidade de escrever, em parte para gerar um fórum de discussão sobre algumas idéias. Mas as discussões têm sido comigo mesmo, e às vezes eu não consigo concordar comigo, pego minhas coisas e vou-me embora.
Não divulgo este espaço, para não castigar os amigos com uma visita obrigatória. Quem vem, vem atraído por alguma coisa, mas não por cortesia ou atendendo a pedido. Mas seja bem vindo!

João Hélio
Não quero aproveitar uma tragédia para fazer politiquices. Mas acho que uma hora temos de discutir alguns assuntos, por mais que eles nos incomodem. Daí o motivo de eu ter começado pelo assunto mais trágico do ano, o assassinato bárbaro. Sem ideologismos, e sem viés político, acho que nossa democracia pode se aperfeiçoar. Negar discussão é a manutenção do status em que as coisas estão. Justamente o que precisamos mudar.
Diminuir a criminalidade é um outro problema, neste ângulo da discussão. Para isto, é preciso que haja a convergências de tantas ações, políticas, enfim, de tanta coisa, que não me parece viável a curto e médio prazos. Defendo a punição. Não trará o menino João Hélio de volta. Mas talvez, em relação a um criminoso, ou em relação àquela quadrilha, talvez outras vítimas nem venham a sê-lo. Mais: que estes bárbaros enfrentem as conseqüências de seus atos, que paguem pelo crime. A vingança só é admitida quando provinda do Estado. Que nós garantamos que essa "vingança" ocorra. É isto.

Histórias Profissionais
Alguns amigos estão me pedindo para contar algumas histórias (que eles conhecem) referentes à minha vida profissional. Histórias há aos montes. Mas vou filtrar a postagem, para publicar somente aquelas que minha ética permita. Sim, eu disse "minha ética". Não vou publicar histórias que deponham contra a honra, inteligência, integridade ou honestidade de qualquer pessoa que seja. Vou reservar para contar, sem dizer qual o santo, as passagens pitorescas, engraçadas, humanísticas, etc. Por este motivo, muitas de minhas histórias de viagens estão descartadas, para felicidade de uns aí.

Objetivo?
É bom repetir: nada me motiva a publicar este blog senão uma necessidade de escrever e compartilhar. Alguns amigos estão me perguntando se estou preparando o terreno para outras ações. Resposta: NÃO. Em negrito e caixa alta. Não me valeria de um subterfúgio destes.Por este motivo, não esperem aqueles textos sobre motivação, organizações, etc, etc. Este é um espaço para desabafar e relaxar. Se precisar de outro espaço para aqueles textos, arranjamos outro.

Interação
Ainda estou numa fase de experiências com esse mundo de blogs. Ainda não avaliei facilidades, diferenças, diferenciais. Por enquanto, vou no Terra. Se achar que preciso de mais, procuro um outro ponto. A interação, portanto, é esta que propicia o Terra. Vou, na medida do possível, avaliar outras ferramentas. Se alguém tiver alguma sugestão, favor indicar.

Assuntos
Como podem ver, pulo de assunto a assunto, sem me ater a nenhuma linha específica. Pode ser que fale de fórmula 1, pode ser que fale de algum seriado de que gosto. Ou, se algum assunto tiver dando ensejo a muitas manifestações, podemos continuar com eles por um tempo. Vamos ver. Mas não quero transformar este espaço em palanque temático, contra ou a favor do governo, da maioridade penal, da violência, etc. Vejo como num jantar entre amigos, onde se fala de tudo com todos. A máxima de que se fala somente dos ausentes não pode ser observada num ambiente virtual, por isto, falaremos de tudo e de todos.

Agradeço as mensagens, agradeço mais ainda os que, criticamente, colaborarem com idéias e sugestões.

Um texto de Lourenço Diaféria

Há alguns anos, em um processo desgastante, pesado, estressante, recebi de um amigo este texto, que reproduzo abaixo, de autoria de Lourenço Diaféria. Desde então, sempre que acho que preciso, volto a lê-lo, tentando resgatar a emoção original da época em que o recebi.
Esse amigo, perdido no tempo – disseram-me que já faleceu – era daqueles amigos que, a toda prova, eram realmente amigos. Mas que a vida, as circunstâncias, o tempo, enfim, afastou.
O texto, brilhante como um Diaféria, merece ser compartilhado.

Quando vai ser a próxima Corrida?

Lourenço Diaféria

Você venceu!
Você chegou onde queria.
Se lembra quando lhe disseram que a parada iria ser dura?
Muitos nem tentaram.
Muitos desistiram.
Muitos desanimaram.
Muitos falaram que não valia a pena.
Mas você chegou onde queria.
Foi difícil, a pista estava escorregadia.
Quantas pedras no meio do caminho.
Não eram todos que aplaudiam. Alguns o olhavam com olhar de descrença, diziam: - Coitado, é um sonhador.
Bolhas nos pés, tênis apertado, o suor escorrendo pelo rosto, a ladeira íngreme, e o dramático instante da dúvida: paro ou continuo?
Uma decisão apenas sua.

Alguns estavam caídos de cansaço e tédio.
Havia ainda um longo caminho pela frente,
e havia mais curvas do que retas.
Alguém o animou - Força, cara.
Alguém o provocou - E agora, cara?
Alguém tripudiou - Larga disso, cara.

Lembra?, você teve uma baita vontade de ir embora, de pegar suas coisas e dizer - Tchau mesmo, quero que tudo se lixe, pra mim chega, já dei minha cota, não tem mais jeito - e virar as costas à luta, à incompreensão, ao sacrifício.
Você teve vontade de ir para uma ilha deserta onde vertessem leite e mel.

Você olhou em frente. O horizonte era uma sombra parda.
Mas mesmo nessa hora tensa, pelo sim pelo não, você não parou de correr.
Talvez tenha diminuído o tamanho do passo, porque ninguém é de pedra e o coração da gente não pode ser medido com trena e compasso.
Mas você não parou porque sabia que no meio da multidão havia um recado mudo aguardando a sua decisão.
De sua decisão dependia a esperança de gente que você nem conhecia.
Então você tomou um fôlego, abriu o peito, e com os pés no chão e os olhos lá na frente, mandou ver.
Não importava tanto a colocação.
Você lutava para construir a sua parte no edifício do destino.

E foi seguindo.
Sem perceber, arrastou com seu exemplo muitos que pensavam em ficar no meio do caminho.
E você venceu.
Você chegou onde queria.

Ou você não venceu.
Você não chegou onde queria.
As coisas não deram certo, você tropeçou, havia um buraco, e outro buraco, e mais um buraco no chão feito de armadilha.
Você caiu, rolou, ah, houve gente que riu!
Alguém vaiou.
Você não venceu. Você não chegou onde queria.
Esfolou a pele, abriu ferida, em vez de estrelas o cobriu um manto cravejado de ridículo.
O suor de seu rosto foi em vão.
Em vão seus músculos latejaram.
Tudo em vão.
Apanhe seu embornal de mágoa, fique de mal com o mundo, abandone a pista.
Você teve a tentação.

Mas na multidão alguém esperava seu gesto de conquista.
Vamos, rapaz, esfregue a perna. Levante os ombros.
Não deixe que se apague o brilho dos seus olhos.
Escute o bater abafado do coração que insiste.
Você está vivo, e não está vivo à toa.

Você se levantou, se lembra?, e a vaia lhe soou como sinfonia.
Recomeçou a corrida e quando, por fim, você chegou - não em primeiro, como sonhava - mas chegou, o suor de seu rosto parecia purpurina.
Todos pensavam que você estivesse satisfeito por haver chegado.
Então você recolheu os retalhos de suas forças e perguntou:
- Quando é que vamos disputar a próxima corrida?
E foi neste momento que você venceu e chegou onde queria!

João Hélio e o Congresso

O Congresso (Senado) adiou a discussão sobre a maioridade penal no Brasil. Uma pena. O presidente Lula havia dito que a diminuição da idade penal não diminuirá a violência no Brasil. Verdade. Mas, no caso, acho que o que a sociedade está querendo é a punição. Medidas preventivas, estamos esperando várias. Tantos crimes poderiam ser evitados, com a simples e ostensiva presença do estado. Mas o Estado não está lá.
Outros crimes, tantos, ainda precisam ter identificados seus agentes. Tarefa do Estado. Mas o estado não está lá. Ter uma máquina policial com tantos problemas como a nossa não é desculpa para não punir. Mas, vá lá, é querer tirar leite de pedra.
No caso do menino João Hélio, os criminosos estão identificados. Colocados sob a letra da lei, o que lei nos dirá: que os menores não são puníveis. Não é isto que revolta?
O dever-poder de punir é do Estado. Não é somente uma poder dele, mas um dever. Dever restrito às leis, é isto. E o que estamos querendo discutir é que esta lei não permite a punição do criminoso, por que ele ainda não tem tempo suficiente nesta vida. Parece que ele não entende as conseqüências dos seus atos. Só parece.
Matar, agredir, ferir, são atos que desde a mais tenra idade são reprováveis e reprovados. Que mãe já não repreendeu, veementemente seu filho, por causa de uma agressão a outra criança? É isto. Entende, sim. Fosse uma elisão fiscal, um crime do colarinho branco, aí poderíamos discutir com igualdade de ânimo. Mas estamos falando de matar.
Não que o mais hediondo dos crimes vá fazer o Congresso Nacional se emocionar (o presidente Lula diz que não devemos fazer as coisas sob comoção). O Congresso atendeu ao pedido do presidente e postergou essa discussão. Para quando?
Lembremos-nos do código civil, recentemente aprovado. Quantos anos ele ficou na fila das votações? Por volta de 30 anos. Quer dizer que as relações normatizadas pelo código não são importantes? Não, quer dizer que o congresso estava preocupado com outras coisas (vale outro post para falar disto).
E a discussão não pode ser reducionista como estão mostrando alguns meios de comunicação. A Folha de São Paulo publica hoje uma relação de países e suas respectivas idades penais. É Uma boa comparação. E há mais uma: e se a “criança”, pela comprovação do entendimento de seus atos, puder ser julgada como adulto? Não se mexe na idade penal, mas, pelo critério do entendimento e da intenção, torna puníveis algumas “crianças” em casos específicos?
Tai uma idéia. Só para sair do reducionismo do "pune-não-pune". Que alguém atire a primeira pedra.
Minha indignação não tem limites. Acho que nunca farei idéia do que estaria sentido se tivesse acontecido com um filho meu.
Luto, em revolta contra o congresso.

Friends

Triste constatação: quanta gente a gente vai deixando pelo caminho!
Estes dias, depois de muito tempo, reencontrei um amigo. Um grande amigo. Que, em nossos idos tempos, era daqueles que estavam sempre conosco, sempre na mesma velocidade, sempre na mesma batida. E a vida nos separou, assim, da forma que vida faz. E o acaso nos fez reencontrar. E não foi bom.
Acho que eu esperava que, depois de tanto tempo, ainda tivéssemos assunto. E que os assuntos, caso os tivéssemos, nos levasse a coisas comuns, de que ambos poderíamos falar. mas não foi o caso. O dia-a-dia dele é totalmente diferente do meu. E as coisas comuns na vida dele nem de longe são coisas comuns às minhas. E nossa conversa ficou nas lembranças, como naqueles filmes, das coisas que passamos junto, fugazes e distantes no tempo.
Foi uma impressão, ruim, mas que precisava ser posta à prova. Tempos depois, um outro amigo, que não estava há tanto tempo assim afastado. Somente alguns meses. E o resultado foi o mesmo, tristemente.
Diria um analista que o problema é idealizar essa amizade. Esperar dela coisas que podem não fazer parte dela. Mas, incomodado, eu perguntaria ao analista: - E o que é, então?
É verdade que o tempo nos transforma. Cansamos de algumas batalhas, vencemos outras, perdemos tantas. O mundo, para cada um de nós, deixa de ser aquele daqueles tempos. A realidade é outra, e acho que nossos amigos também sentem o que senti.
Como fazer, então, para que o mundo não nos desfigure?
Acho que não há como. Estaremos sempre nos transfigurando, na direção dos ensinamentos da vida, "dando a cara para bater", ou fugindo das brigas. E, assim, acomodando-nos à vida.
Ou melhor, há sim, como não chocar nossos amigos: é não nos permitindo afastamentos. É fazendo de tudo para que os contatos existam, e que nossa transfiguração seja acompanhada por todos, como naquele efeito que têm as pessoas que acompanham o crescimento de uma criança, e não percebem o quanto cresceram até ter a atenção chamada para o fato.
Pois sim, meus amigos, não é tarefa fácil. Por que a vida não é fácil. Leva-nos aos compromissos de trabalho, às responsabilidades de pais, às tarefas familiares. O tempo que sobra, queremos para nós, para nossos atrasos, para nosso sono sempre deficitário. É isto?
Isto é um mea culpa. Acho que não há culpado, somente a uma vida que nos obriga a algumas escolhas. Mas o resultado é: não conhecemos mais nossos velhos amigos.

João Hélio e a idade penal

Difícil não mencionar o caso do menino João Hélio, que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro. É o tipo de crime que assombra, que nos deixa querendo não acreditar. Mas, infelizmente, aconteceu.
Diz o Jânio de Freitas, em sua coluna de hoje na Folha de São Paulo, que o “líder” dos assaltantes passou sete vezes por unidades da Febem e/ou cadeias. Mas, sete vezes, foi libertado. E aí está, uma morte estúpida como a desse menino.
Autoridades ouvidas pela Folha se declaram, salvo uma ou outra exceção, contrárias à redução da idade penal no Brasil. Mas este é um debate do qual não podemos nos ausentar. A “idade penal” pressupõe um fator objetivo para punir alguém: o critério cronológico. Acima de 18 anos, é imputável (punível). Abaixo, não. A grande pergunta: esses menores, ao perpetrarem esse bárbaro crime, sabiam o que estavam fazendo? Sabiam que o garoto poderia morrer? Tinham condições de avaliar a situação e entender as conseqüências de seus atos? Se a resposta for sim, então eles deveriam ser punidos como adultos. Claro, não é esta a lei no Brasil. Mas não deveria ser?
O Brasil é um grande exemplo nessas questões objetivas. Quando se estabeleceu, corretamente, a proteção aos idosos, através de prioridade de atendimento, em bancos, por exemplo, o que se viu foi uma ação rápida e esperta de várias empresas, que passaram a contratar pessoas de idade para ir aos bancos fazer seus pagamentos. Como idoso tem prioridade, essas atividades passaram a ser realizadas em tempo muito menor. Benefícios? Alguns idosos conseguiram empregos. Outros idosos tiveram de aguardar mais tempo na fila. A população viu empresas furarem a fila geral (mais tempo na fila do banco, como se já fosse pouco...). E as empresas, estas sim, ganharam tempo...
Com o crime, é a mesma coisa. Já se diz que um dos irmãos assumiu a culpa pode ser menor de idade, inimputável, portanto. Quer dizer, seu castigo, nessa condição, não se compara ao martírio do irmão, já maior de idade.
Em nossa imaginação, protegemos a criança com a lei que prevê a idade penal. Na prática, essa criança se droga, rouba, ameaça, mata. Acho que não era bem esse tipo de criança que queríamos proteger. Em nossa mente, essa criança era o João Hélio. Que, criança, não poderá passar disto. Por causa de um protegido nosso, um bárbaro.
Luto.